Sobriedade: educar para a liberdade e para o amor

Continuando a conversa sobre o amor

Duas semanas depois de falar aos pais sobre o perdão, o Pe. Alberto Shintani voltou a se reunir com as famílias do Colégio Catamarã para uma nova palestra, desta vez sobre a sobriedade. O fio que une os dois temas é o mesmo: o amor.

“Educar na sobriedade é educar para o amor”, afirmou logo no início. A proposta da conversa, sugerida pelo próprio colégio, nasce de uma preocupação concreta: ajudar os pais nessa tarefa que hoje, talvez mais do que nunca, parece ir contra a corrente.

O que é, afinal, a sobriedade?

A primeira ideia que costuma vir à cabeça quando ouvimos a palavra sobriedade é a de privação, de uma vida cinzenta, de negação do prazer. Há quem associe a vida cristã a essa imagem austera, quase triste.

A origem latina da palavra, porém, aponta para o oposto. Sóbria é a pessoa que não está embriagada, que está na posse de si mesma, que não está entorpecida. Sobriedade era o nome que os latinos davam à liberdade interior.

Não se trata, portanto, de uma virtude de negadores. É uma virtude de pessoas livres. É justamente o que nos torna verdadeiramente capazes de escolher.

O ambiente em que vivemos

Nossos filhos não crescem numa bolha. Crescem dentro de uma cultura que tem uma lógica muito específica, e entender essa lógica é o primeiro passo para educá-los bem.

Uma das marcas do nosso tempo é que o mercado já não se limita a responder aos nossos desejos. Ele os fabrica. Quem nunca entrou numa loja e descobriu, ali mesmo, que precisava de algo que jamais havia desejado antes? Quem nunca abriu a Amazon para comprar uma coisa específica e saiu de lá com várias outras menos a que realmente precisava?

O resultado dessa dinâmica é uma figura muito conhecida: o insatisfeito crônico. Nunca estamos satisfeitos com o que temos, com quem somos. Quanto mais temos, mais desejamos. A vida passa a ser uma sequência ininterrupta de desejos.

Esse problema, na verdade, não é novo. Ovídio, contemporâneo de Cristo, já dizia: “Vejo as coisas melhores e as aprovo, mas escolho as piores.” É o que o cristianismo chama de concupiscência, a inclinação ao mal que carregamos desde o pecado original. O que mudou foi a velocidade e a sofisticação com que o ambiente retroalimenta nossos desejos.

Do desejo à necessidade: a tarefa dos pais

Toda criança pequena conhece bem essa dinâmica. Diante da seção de doces do supermercado, ela chora como se a vida dependesse daquele chocolate. Para nós, é exagero. Para ela, é realidade.

Acontece que num bebê o desejo é necessidade. Se tem fome, chora. Se tem frio, chora. Conforme cresce, vai surgindo a distinção entre o que é desejo e o que é necessidade. Mas a criança ainda não tem instrumentos para fazer essa distinção sozinha.

É aqui que entra a tarefa insubstituível dos pais. Ninguém mais pode fazer isso. O colégio sozinho não consegue, porque se em casa todo desejo da criança é tratado como necessidade, ela continuará vivendo essa confusão por mais que a escola lhe diga o contrário.

Quando o desejo é sempre identificado com a necessidade, ele vira capricho. O capricho, com o tempo, vira vício. E aí já não sou eu que tenho o desejo: é o desejo que me tem.

A lei das repetições decrescentes

Os autores chamam isso de “lei das repetições decrescentes”. É uma espécie de ladeira abaixo. Se nada fazemos, descemos.

Quanto mais alimentamos um desejo, menos ele nos satisfaz. É o que a medicina chama de tolerância. A primeira vez que vimos o mar foi maravilhosa. Se fôssemos à praia todos os fins de semana, perderíamos a capacidade de admirá-lo. Diante dessa diminuição do prazer, restam dois caminhos: aumentar a frequência ou aumentar a intensidade. Quem se vicia em drogas raramente para nas leves.

O Pe. Alberto citou uma notícia recente sobre um jogador de futebol famoso, com prestígio profissional, fama e uma noiva belíssima, que havia traído a noiva com mais de dez mulheres em menos de um ano. Quem lê uma notícia dessas pensa logo: ele tinha tudo. E é exatamente esse o ponto. O que ele tinha já não bastava. A lei das repetições decrescentes nos faz cansar até das coisas mais sublimes quando não as vivemos com profundidade.

A mitologia grega oferece uma imagem útil: Ícaro e suas asas de cera. Há dois riscos na vida. Um é voar muito baixo, contentar-se com pouco, com um voo de galinha. O outro é queimar as asas voando alto demais, sem ordem, até a autodestruição. Para nossos filhos, queremos um voo alto e bem feito.

Por trás de cada vício, alguém batendo à porta do céu

Há uma frase que o padre tem guardada de uma leitura antiga: “Por trás de cada adição há um homem batendo à porta do céu.” Ninguém procura ser escravo. Quem está viciado em algo é porque, no fundo, acreditava que ali encontraria a felicidade. Bateu à porta do céu no lugar errado.

Bento XVI dizia que a missão de evangelizar hoje consiste em saber encontrar as perguntas corretas do nosso tempo para dar a única resposta correta, que é Cristo. A resposta nós já temos. O desafio está em fazer as perguntas que cabem aos nossos filhos hoje.

Porque, como escreveu Santo Agostinho, “fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em Ti”. Esse desejo de infinito não é um defeito. É uma marca divina na alma. O problema nunca está no desejo. Está no destino que escolhemos para ele.

Ter, possuir-se, ser tido

O filósofo espanhol Alejandro Llano fala em três verbos que iluminam nossa relação com as coisas.

O primeiro é ter. Deus nos pôs no centro da criação justamente para que desfrutássemos dela. O cristianismo não é maniqueísta: o material não é mau, e o espiritual não é o único bom. Deus criou o mundo e viu que era bom.

O segundo é possuir-se. É o autodomínio, a capacidade de ser senhor de si mesmo. É aqui que entra a sobriedade, não como negação do ter, mas como condição para que o ter não acabe me dominando.

O terceiro é ser tido. Acontece quando as coisas tomam o lugar do sujeito. Já não sou eu que possuo: sou possuído. A relação se inverte.

São Josemaría Escrivá chamava a temperança de “espírito senhoril”. Ela se conquista quando temos consciência de que nem tudo o que se pode fazer se deve fazer. É mais cômodo deixar-se arrastar pelos impulsos chamados naturais, mas no fim desse caminho está a tristeza, o isolamento na própria miséria.

Essa tristeza não é castigo divino. É a consequência natural de um coração que se fragmenta em mil pedaços. Em vez de um coração sólido e firme, um coração disperso em desejos que nunca se completam.

Sobriedade é condição para o amor

A sobriedade não é apenas uma higiene da alma para que eu não vire escravo das coisas. Isso já seria muito, mas ainda seria pouco.

A ideia central é simples: só pode dar quem tem, e só tem, no sentido pleno, quem se possui. Quem é dono de si mesmo é capaz de se entregar. Quem é possuído pelos próprios desejos não tem as mãos livres para ninguém. Pode estar rodeado da família, do cônjuge, dos amigos, e mesmo assim estar vazio por dentro. Ou, pior, cheio de coisas que não enchem o coração.

É triste quando uma criança pergunta ao padre coisas como “o que eu faço quando meu pai volta mal-humorado do trabalho?” ou “o que eu faço quando meus pais brigam na minha frente?”. A criança ali está sendo obrigada a administrar suas emoções para se adaptar aos caprichos dos adultos. É o oposto do que deveria ser.

Quando o pai e a mãe têm senhorio de si, têm as mãos livres para se entregar aos filhos, ao cônjuge, a Deus. E têm também as melhores condições de educar os filhos nesse mesmo caminho.

São Josemaría dizia: “Quem é senhor de si mesmo possui possibilidades de entregar-se ao serviço do próximo e de Deus, e alcançar assim a máxima felicidade e paz possíveis nesta terra.”

O que valoriza o filho

Vale uma reflexão. Que pai não se encheria de orgulho se ouvisse do filho que sua maior meta na vida é ser metade do que o pai é? Qualquer um se sentiria a pessoa mais feliz do mundo.

Os filhos valorizam os pais muito mais por quem eles são dentro de casa do que por quem são fora dela. Os pais, com toda boa intenção, muitas vezes pensam o contrário. Investem na vida profissional acreditando que aquilo é o que mais importa para a família. Mas, para um filho, o pai e a mãe verdadeiros são aqueles que aparecem no jantar, no café da manhã, na conversa do carro a caminho do colégio.

Como educar na prática

O exemplo

A sobriedade se transmite por osmose. Quando os filhos veem os pais renunciando a um capricho com elegância, sem cara feia, sacrificando o próprio descanso para estar com eles, conversando sem mexer no celular, vão aprendendo o valor de tudo isso de forma natural.

Crianças são muito observadoras. Nada as desorienta mais do que ouvir uma regra dos pais que os próprios pais não cumprem. Proibir o celular dos filhos com o celular na mão durante o jantar é o tipo de incoerência que as crianças percebem e comentam.

Liberdade acompanhada

Não se trata de proibir tudo nem de permitir tudo. Trata-se de ajudar o filho a aprender a escolher e a aceitar as consequências de suas escolhas.

Em muitos casos, é pedagógico que os pais alertem o filho sobre as possíveis consequências negativas de uma decisão e, ainda assim, deixem que ele decida (desde que não haja risco grave). Quando o filho quebra a cara, a tarefa dos pais é conversar depois, fazê-lo refletir. Não basta o sabor amargo do erro. É preciso que o filho pense.

São Josemaría, em uma visita ao Brasil, recomendou a uma mãe que sempre se desse aos filhos um pouquinho menos do que eles esperam. Para que percebam que as coisas custam, que o dinheiro tem valor. Por isso a mesada de uma criança de 10 anos não pode ser a mesma de um adolescente de 18. Conforme cresce, a corda vai sendo solta um pouco mais, mas sempre firme.

São Josemaría também alertava para um perigo silencioso: o pai dá um pouquinho de dinheiro, a mãe dá um pouquinho, a avó dá um pouquinho, e cada um vai guardando seu segredo com o filho. Quando os pais percebem, o filho está muito mais solto do que deveria.

Poucas regras, muito claras

Cada família precisa ter regras claras de convivência. No jantar todo mundo está presente. No jantar não se usa o celular. O celular só é usado em espaços comuns da casa, nunca trancado no quarto, nunca no banheiro.

Sobre o celular, especificamente, o padre foi direto. Não há uma idade ideal para entregá-lo. Depende da maturidade da criança, da relação com os pais, da formação que recebeu. O que não pode acontecer é entregar o aparelho sem regras. O celular precisa ser apresentado como algo que pertence aos pais e que é emprestado ao filho sob certas condições. Há famílias que recolhem o celular dos filhos à noite e os recarregam no quarto dos pais. Funciona.

A frase que talvez tenha sido a mais forte da palestra: ninguém deixaria um filho adolescente trancado num quarto com uma caixa de revistas pornográficas. O celular pode ser muito pior do que aquela caixa. Nós mesmos, adultos, temos dificuldade de nos controlar com o aparelho. Esperar isso de um pré-adolescente é, no mínimo, ingenuidade.

Regras precisam ser poucas e claras. E os filhos precisam saber qual será a punição quando forem violadas.

Liberdade e lei, misericórdia e critério

No livro do Êxodo, Deus liberta o povo de Israel da escravidão e logo depois lhe entrega as tábuas da lei. Liberdade e regras caminham juntas. Misericórdia e critério também.

O critério é a regra que não muda, mesmo quando é quebrada. Muitos pais, especialmente as mães, tendem a amenizar a regra quando o filho não consegue cumpri-la. “Coitadinho, é difícil ficar sem celular, deixa usar.” Quando os pais quebram as próprias regras, os filhos perdem seus pontos de referência. É como jogar futebol num campo onde a regra muda quando o jogador toca a bola com a mão. Ninguém quer jogar assim.

A lei permanece. E, ao lado dela, o amor incondicional. Os filhos precisam saber que, aconteça o que acontecer, são amados. Que o amor dos pais não depende do cumprimento das regras. Para nós, isso é óbvio. Para uma criança, nem sempre é.

Na parábola do filho pródigo, o filho só foi capaz de voltar para casa porque confiava na misericórdia do pai. Tinha aprendido essa misericórdia desde pequeno. Se nossos filhos um dia se afastarem, queremos que voltem. E só voltarão se tiverem certeza de que serão recebidos.

A imagem que os filhos terão de Deus é a imagem que têm dos pais. O Pe. Alberto contou que, quando estudava no Japão, um amigo lhe perguntou como era o Deus dos cristãos. Depois de uma longa explicação sobre a filiação divina, o amigo respondeu: “Se Deus é meu pai como o meu pai é meu pai, prefiro que Deus não exista.” É um caso extremo, mas serve de alerta.

Quando os pais erram

Muitas dessas coisas, na prática, não vivemos bem. O que fazer?

Saber pedir perdão ao filho. Os filhos não esperam pais perfeitos. Esperam pais honestos. Uma criança perdoa um pai que erra, mas não perdoa um pai que mente. Quando uma promessa é feita, ela precisa ser cumprida. Quando uma bronca foi dada de modo errado (mesmo que o conteúdo estivesse certo), vale pedir desculpas pela forma. O filho percebe ali a honestidade dos pais.

Pai e mãe sempre de acordo. Os filhos são espertíssimos e logo descobrem quem dirá “sim” para cada coisa. Se aprendem que conseguem manobrar os pais, passam a governar a casa. Mesmo quando há desacordo, ele não se mostra na frente das crianças. A discussão fica para depois, a sós.

Continuar a se formar. É exatamente para isso que existem essas formações de pais e as tutorias do Catamarã. Pais aprendem com a vida, com os erros, com os filhos. Envelhecer é automático. Amadurecer não é.

Nunca subestimar os filhos. O Pe. Alberto contou duas histórias. Na primeira, acompanhou na Espanha um colégio que fez o Caminho de Santiago com adolescentes de 13 e 14 anos. Condição da viagem: nada de celular. Houve reclamações de alunos e pais. O colégio respondeu que a viagem era opcional. Todos foram. Passaram a semana conversando, e voltaram dizendo que tinha sido difícil, sim, mas que foram muito felizes.

Na segunda, o padre conta sobre os jantares de sexta-feira no Clube Forja, que muitos alunos do Catamarã frequentam. São quase uma hora de pizza com adolescentes do 8º ano ao 3º do ensino médio, e ninguém usa o celular. O segredo? Uma regra simples: o primeiro que tocar no aparelho lava a louça de todos. Funciona sempre.

Crianças têm um coração muito mais elástico do que pensamos. Muitas vezes, o limite do filho é o nosso próprio limite, que projetamos sobre ele.

A beleza da sobriedade

A síntese da palestra cabe em uma frase: ser senhor de si para não ser escravo de ninguém e servidor de todos.

Quem aprende a ser sóbrio aprende a servir, porque é capaz de se dominar. Quem aprende a servir aprende a amar. E quem aprende a amar tem tudo o que precisa para ser feliz.

Esse é o caminho que o Colégio Catamarã quer oferecer aos seus alunos. E é a herança que, juntos com as famílias, esperamos deixar a cada um deles.

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