Palestra do Pe. Alberto Shintani, capelão do Colégio Catamarã, proferida aos pais de alunos
Uma palestra nascida de uma pergunta
O Pe. Alberto Shintani, capelão do Colégio Catamarã, reuniu os pais para uma palestra que já vinha sendo dada, ao longo do ano, a todas as salas do colégio. O tema, escolhido com cuidado, nasceu de uma pergunta que ele costuma se fazer: que herança gostaríamos que nossos alunos levassem daqui quando se formarem, chegarem à faculdade, começarem a trabalhar?
A fé e a formação acadêmica estão no topo dessa lista. Mas, ao lado delas, o padre colocou algo menos evidente e profundamente importante: a capacidade de pedir perdão.
“Ao longo da nossa vida, todos nós fazemos e faremos muitas besteiras”, disse. “Se esses alunos tiverem a capacidade de refletir sobre suas ações e de pedir perdão cada vez que perceberem que erraram, acontecendo o que acontecer, sempre haverá esperança na vida deles.”
A palestra foi apresentada aos pais com um objetivo claro: garantir a unidade entre o que se ensina no colégio e o que se vive em casa. Abaixo, os principais pontos da reflexão.
Quem deve tomar a iniciativa da reconciliação?
Quando há uma ruptura entre duas pessoas, seja entre marido e mulher, pais e filhos, duas amigas, a reação natural é pensar que quem deve buscar a reconciliação é o agressor. Afinal, é ele o culpado.
A resposta cristã, porém, é outra: quem começa a perdoar é aquele que tem mais amor.
Para explicar, o padre recorreu à encíclica Deus Caritas est, do Papa Bento XVI, que distingue duas dimensões do amor: o eros, que é a atração pelo outro, e o ágape, que é o amor de doação, de entrega. O ágape sem o eros seria uma bondade fria; o eros sem o ágape, um egoísmo puro. O amor verdadeiro integra as duas dimensões.
Aplicando isso ao perdão: quando eu, mesmo sendo a parte agredida, tomo a iniciativa de facilitar a reconciliação (pela proximidade, pelo sorriso, pelo bom humor), estou dizendo ao outro: “Você é tão importante para mim que sem você falta algo no meu coração, eu fico incompleto.”
Cristo na cruz: o modelo do perdão
Essa lógica encontra sua expressão mais alta na Cruz de Cristo. “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” foram as primeiras palavras de Cristo crucificado. Deus era a parte ofendida na ruptura entre Deus e a humanidade e, ainda assim, foi Ele quem tomou a iniciativa da reconciliação com a humanidade, justamente porque Ele era o que mais podia amar, Ele é Amor.
Na Cruz, Cristo nos diz a cada um de nós: “Sem você falta algo no meu coração. Por isso eu me entrego por você.”
O padre destacou um detalhe importante: Jesus, sendo Deus, poderia ter dito “Eu perdoo vocês”. Mas preferiu dirigir-se ao Pai: “Pai, perdoa-lhes.” É como se nos ensinasse que, muitas vezes, o perdão supera as nossas forças e precisa ser pedido a Deus. “Pai, eu não consigo perdoar, mas Tu podes. Perdoa em mim, perdoa através de mim.”
No fundo, o coração paterno e misericordioso de Deus é a fonte de todo perdão.
Como o mal e o bem se propagam
Basta abrir o jornal ou enfrentar o trânsito para perceber como o mal se difunde pelo mundo. Uma fechada, uma buzinada, um xingamento, e de repente o nosso dia foi arruinado. Ficamos estressados o resto do dia, mesmo sem ter respondido.
Mas o bem também se propaga da mesma forma: um sorriso, um gesto gentil, uma atenção sincera se espalha por onde passa.
A onda do mal segue um caminho natural. Começa com uma mágoa pequena, passa à desconfiança, à raiva, à fofoca e termina no rancor. A fofoca, em especial, tem um efeito multiplicador: ao falar mal de alguém, conseguimos que pessoas que nem conhecem aquela outra passem a pensar mal dela.
É por isso que, todos os dias, quando rezamos o Pai Nosso, fazemos um compromisso sério com Deus: “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.” Nós pedimos que Deus nos perdoe na mesma medida em que perdoamos os outros. De duas, uma: ou devemos ter a honradez de não rezar o Pai Nosso, ou temos que levar esse compromisso a sério.
Perdão como ato de fé, esperança e caridade
O perdão costuma ser associado apenas à caridade, mas ele envolve as três virtudes teologais.
É um ato de fé porque, num mundo sem Deus, o mal parece irreparável e eterno. Quando alguém nos machuca, vem a tentação de pensar que aquela ferida jamais se curará. Mas o profeta Malaquias escreve: “Levantar-se-á sobre vós o sol de justiça, e em seus raios sereis curados.” Cristo é o Sol de Justiça. Talvez a cura plena só chegue no Céu, mas ela chegará. Perdoar é acreditar nisso, é um ato de fé.
É um ato de esperança porque significa acreditar que a pessoa que nos feriu pode mudar. Quando não perdoamos, identificamos a pessoa com o mal que ela fez: “Ele é mau e sempre será.” Quando perdoamos, dizemos o contrário: “Ele cometeu um mal, mas ele não é esse mal.” São Paulo foi homicida, Pedro negou Cristo três vezes, o bom ladrão foi um criminoso. Grandes santos foram grandes pecadores. Perdoar é acreditar e ter esperança de que a pessoa ainda pode mudar, e acreditar também que nós mesmos podemos mudar.
É um ato de caridade, e aqui o exemplo é a parábola do filho pródigo. O pai não esperou de braços cruzados o filho chegar de joelhos. Correu até ele, compadeceu-se, abraçou-o antes mesmo que o filho pudesse pedir perdão. Muitas vezes perdoamos de cara fechada, da boca para fora. O pai do filho pródigo nos ensina outro caminho: compaixão, proximidade, abraço.
O caderno de dívidas
Quando alguém nos machuca, começamos a carregar mentalmente um caderno de contas. Aquela pessoa me deve um pedido de desculpas, essa me deve uma explicação, aquele me deve respeito, aquela outra me deve justiça. Vamos anotando, somando, guardando. Até que um dia o caderno explode: “Como você faz isso de novo? É a quinta vez!”
Aí está o paradoxo: quem não perdoa acaba acorrentado ao passado e à pessoa que o feriu. Pensa nela o tempo todo. Toda a sua energia mental gira em torno da ofensa. A vítima vira refém.
Quando perdoamos, é como se queimássemos aquele caderno. É o gesto que fazem as crianças do 3º ano ao saírem da sua primeira confissão: amassam o papel onde anotaram seus pecados e jogam fora. O perdão é isso: rasgar a folha, libertar o outro, libertar a si mesmo, voltar a estar livre para amar e confiar.
O rancor é uma algema, e nós mesmos carregamos a chave.
A confissão: buscar o próprio Cristo
Numa imagem para pensar o sacramento da confissão, o padre propôs a seguinte cena: um aluno pouco aplicado percebe, na véspera da prova, que não tem caderno para estudar. Vai até a aluna mais aplicada da sala e pede o caderno emprestado. Do ponto de vista dela, o que é melhor: que ele peça o caderno apenas pelo caderno, ou que o peça também porque deseja chamar a atenção dela?
Se, na confissão, buscamos apenas o perdão, a paz de consciência, a tranquilidade, estamos pedindo somente o caderno. Tudo isso é verdadeiro e suficiente. Mas o essencial não é o que Deus nos pode dar: é o próprio Deus. Na Confissão podemos buscar a amizade com Cristo e o próprio Cristo. Todo o resto vem em consequência.
Por que existe a penitência?
Uma aluna pequena fez uma pergunta interessante: “Se Deus me perdoa, por que Ele me dá uma penitência, como se fosse um castigo?”
Imaginemos que uma criança chute a bola e quebre a janela do vizinho. O que fazem pais bons? Vão até o vizinho, pedem desculpas, arcam com o conserto. Em casa, conversam com o filho. E se esse filho, arrependido, abre sua carteirinha e entrega as moedinhas que tem para ajudar a pagar a janela, o que fazem?
Maus pais diriam: “Você acha que isso dá para pagar?” E humilhariam o filho. Bons pais aceitam as moedas, mesmo sabendo que, na prática, elas não resolvem nada. Aceitam porque o filho quer reparar o que fez, e não se deve humilhar quem se arrepende.
A penitência é exatamente isso. Deus nos perdoa integralmente. A penitência não é castigo. É um gesto extra de amor, um modo de permitir que o filho arrependido sinta que fez algo, ainda que pequeno, para expressar seu arrependimento.
A dimensão comunitária do perdão
O perdão nunca é apenas privado. Jesus disse: “O que desatardes na terra será desatado no Céu.” Quando rompemos a algema que nos prendia a quem nos ofendeu, abrimos o Céu sobre aquela pessoa e sobre nós mesmos. Cada ato de perdão é uma pequena Pentecostes, uma chuva de graças sobre todos os envolvidos.
Entre marido e mulher, entre pais e filhos, isso ganha ainda mais peso. O problema grave não é a briga. Brigas vão existir até o fim dos tempos, porque é impossível conviver tão de perto sem atritos. O problema grave é quando as pessoas param de se falar. O silêncio prolongado diz, na prática: “Eu sou capaz de viver sem você. Você não acrescenta nada ao meu coração.”
Por isso, entre pais e filhos adolescentes, o silêncio é perigoso. O filho acaba entendendo, mesmo sem palavras, que seus pais podem viver sem ele, que ele não ocupa espaço no coração deles. Perdoar, no casamento e na família, é dizer o contrário: “Eu busco a reconciliação porque sem você falta algo em mim, falta algo no meu coração.”
A lógica da Cruz
Tudo o que foi exposto ao longo da palestra tem algo em comum: não se entende fora da lógica do Evangelho. “Loucura para os judeus e escândalo para os pagãos”, escreveu São Paulo. Alguém sem fé pode compreender o perdão até certo ponto, mas não em toda a sua profundidade. Porque no fundo todo perdão é outra forma de dizer “eu te amo”.
Esse foi o convite do Pe. Alberto aos pais do Catamarã: conhecer o que se transmite aos alunos no colégio, para que haja unidade entre a formação recebida aqui e a vida em família. Porque, se nossos alunos saírem daqui com a capacidade de pedir perdão, de perdoar e de recomeçar, terão recebido uma das heranças mais valiosas que uma escola pode oferecer, porque sempre haverá esperança na vida deles.



