Na última semana, os pais do Colégio Catamarã tiveram a oportunidade de refletir sobre isso em uma palestra com Andyara Nóbrega, especialista em educação afetivo-sexual. O encontro destacou como a formação da afetividade e da sexualidade é parte essencial da verdadeira educação para o amor.
Educar para o amor verdadeiro: afetividade e sexualidade
Existe uma tentação muito comum entre pais de concentrar as energias em formar os chamados hard skills dos filhos: uma escola que dá muito conteúdo, com o método certo, acompanhado de idiomas e habilidades técnicas. Ao agir assim, eles supõem que estão garantindo um bom futuro para eles. Será?
A experiência mostra que a formação acadêmica perde fôlego quando os filhos não têm bases afetivas sólidas, quando não sentem a segurança de serem amados, quando não sabem reconhecer e regular as próprias emoções, quando não conseguem cultivar relações saudáveis
Pessoas com currículo notável podem sofrer, cair em espirais de vícios e perder o sentido da vida; já quem cresce com autoestima e segurança tende a florescer onde estiver.
As emoções – a dimensão socioafetiva – fazem parte da pessoa tanto quanto a inteligência e a vontade. Quando os pais a negligenciam, os filhos sofrem como se estivessem sem base na vida. Isso porque afetos bem educados são fundamentais para que as crianças se tornem adultos capazes de relacionar-se – inclusive sexualmente – de maneira saudável. Como sempre e mais do que nunca, é importante começar essa educação em casa, no seio da família.
O amor entre os pais e dos pais é a base
O fundamento de toda educação dada pela família é o amor dos pais entre si. Quando os filhos veem que os pais se amam, se respeitam e falam bem um do outro, sentem-se mais seguros. Mesmo em situações familiares difíceis, a segurança cresce quando os adultos repetem, com palavras e gestos, que a criança nasceu de um amor real e que continuará sendo amada incondicionalmente.
A casa precisa funcionar como um “segundo útero” – lugar de contato, de olhar, de acolhimento das necessidades básicas – especialmente até os três anos, quando o cérebro ainda não sustenta raciocínios complexos e tudo chega como experiência sensível. É assim que a criança internaliza: “Sou amada, posso confiar nas pessoas e no mundo”.
Esse porto seguro aparece em repetições muito simples. O abraço que se oferece sem pressa, o colo que tranquiliza, o chão da sala onde os pais se abaixam para brincar comunicam mais que mil explicações. Os pais são referências inescapáveis dos filhos; são um porto seguro dos quais as crianças partem e para o qual voltam. A teoria do apego – desenvolvida por John Bowlby e Mary Ainsworth – descreve isso bem: vínculos estáveis costumam gerar crianças mais abertas, curiosas e confiantes; ambientes ansiosos, superprotetores, frios ou incoerentes tendem a produzir insegurança, dependência ou retraimento.
Do lado prático, a família educa o afeto e a autoestima dos filhos na primeira infância por meio de hábitos estruturantes que ajudam as crianças a apreciarem e a cuidarem do próprio corpo: sono, higiene, alimentação e ordem.
Do sentir ao agir: autoconhecimento, autodomínio, autonomia e autoestima
À medida que as crianças crescem fisicamente, os pais podem começar a ajudá-las a crescer também por dentro. O primeiro passo nesse sentido é ajudá-las a conhecer-se, a regular as próprias emoções, a ganhar autonomia e formar uma autoestima sólida.
O autoconhecimento dos filhos começa pelos pais. Ao perceberem que cada filho é único e tem um temperamento e um ritmo diferente dos outros, sem comparações injustas, ajudam o filho a enxergar-se como é e a aceitar-se. Uma criança mais ponderada não é “preguiçosa”; outra, muito ativa, não é “problemática”. Cada uma precisa de direção e de um clima de amor que a ajude a descobrir suas forças.
O autodomínio se ensina nas situações reais do dia. Um exemplo simples: o filho foi grosseiro com a prima. Em vez de perguntar apenas “por que você fez isso?”, que costuma paralisar ou estimular desculpas, vale ajudar a deslocar o foco – “Como você acha que ela ficou ao ouvir aquilo?” – e, a partir daí, propor reparação concreta. Esse pequeno giro do “eu” ao “nós” treina empatia e responsabiliza sem humilhar. O mesmo vale para a frustração: perder no futebol, não comprar algo “agora”, esperar a vez na brincadeira. Em doses graduais, a frustração é aliada da autorregulação; evitá-la sempre rouba musculatura emocional.
A autonomia nasce quando confiamos de verdade. Uma regra de ouro ajuda muito: nunca fazer nada que a criança pode fazer sozinha. Há riscos proporcionais à idade que valem a pena – subir numa árvore baixa, tentar novamente uma escadinha, ajudar a cortar frutas com uma faca sem ponta sob supervisão. Se cair, machuca um pouco – e aprende muito. Autonomia também se ensina com encargos por idade. Entre 2 e 3 anos, guardar brinquedos e pôr a roupa suja no cesto; aos 4 e 5, alimentar o cachorro e varrer; aos 6 e 7, dobrar roupas, esvaziar a máquina e fazer a própria cama ao acordar. Esse gesto diário inaugura uma sequência virtuosa: responsabilidade leva à competência; competência, à autoconfiança.
A autoestima, enfim, não nasce de elogios vazios, mas da experiência concreta de ser amado e capaz. No auge das birras, muitas vezes é o corpo – e não o discurso – que educa: um abraço firme, um colo, um “estou aqui”, seguido de nomeação da emoção (“isso foi frustrante”) e de proposta de saída (“vamos tentar de outro jeito?”). Em paralelo, explicitar os valores da família ajuda a orientar: “na nossa casa, jantamos à mesa e conversamos”, “aqui, pedimos desculpas e recomeçamos”. E integrar a dimensão espiritual amplia horizontes: aprender a amar o que é bom, verdadeiro e belo dá sentido às renúncias e alegrias do cotidiano.
Corpo em movimento e tempo bem vivido
Antes dos seis anos, o cérebro aprende sobretudo com movimento: engatinhar, subir, descer, saltar, medir o espaço com o próprio corpo. Por isso, a brincadeira ao ar livre vale ouro. Um pouquinho de terra no jardim pode ser uma grande aula de mundo. Essa é a razão pela qual a questão das telas não é só de conteúdo; é, primeiro, uma questão de tempo e de oportunidade. Cada minuto parado diante de um dispositivo é um minuto a menos explorando, imaginando, convivendo. Quando o corpo se mexe, a mente organiza; quando a mão manipula, a linguagem floresce. Proteger o tempo para brincar, conversar, cantar, cozinhar juntos, regar plantas ou ligar para os avós constrói redes de memória afetiva e de sentido que o algoritmo não substitui.
Uso de telas: menos é mais (e com regras claras)
Não se trata de demonizar tecnologia – ela pode educar, aproximar a família distante e abrir janelas para o conhecimento –, mas de reconhecer que, sobretudo na primeira infância, menos é mais. Quatro critérios simples costumam funcionar:
- Tempo combinado: tempos curtos, com começo e fim claros (um episódio, um alarme).
- Espaços comuns: telas apenas em ambientes da casa onde todos circulam; nada de telas no quarto.
- Uso conjunto sempre que possível: assistir junto, comentar, contextualizar, ensinar a pausar para conversar.
- Substituições inteligentes: antes de ligar o desenho, oferecer alternativas que exigem corpo e relação, como brincar, cozinhar, regar plantas, ligar para os avós, montar um quebra-cabeça etc.
Na primeira infância, as telas têm de estar idealmente no zero. Nos anos iniciais do Fundamental, os pais podem ir abrindo espaços com bom senso e revisando combinados de tempos em tempos, à medida que a criança demonstra responsabilidade. E quando surgirem conflitos (e eles surgirão), voltar ao essencial: a tela é ferramenta; a vida acontece fora dela.
Educação da sexualidade: falar cedo, com verdade e ternura
Não se pode falar em educar os afetos, as emoções, o autoconhecimento, a autoestima e o autodomínio sem falar da educação da sexualidade. O sexo é, por excelência, uma forma de expressar o amor com o corpo: um ato maravilhoso, que dá origem à vida, querido por Deus e abençoado com a criação de uma alma. Por ser tão grande, merece ser tratado com naturalidade em casa, desde cedo, com verdade e ternura.
Conversar com serenidade: como começar e o que dizer
Quem ensina os filhos a andar, comer, agradecer? Os pais. E quem lhes apresenta o mistério da origem da vida? Também os pais. Se a família se cala, as crianças procuram respostas em outros lugares (colegas, internet) e dificilmente encontram a verdade. Por isso, o primeiro passo para tratar desse tema em casa é abrir um canal de confiança:
- acolher as perguntas sobre sexo com naturalidade: “Que bom que você perguntou isso!”;
- entender o contexto: “Onde você ouviu isso?”
- e sempre responder com a verdade, em uma linguagem adequada para a criança, ainda que seja preciso esperar um pouco (“Agora estamos aqui no restaurante, mas quando chegarmos em casa, a mãe vai explicar para você”).
Valorizar o corpo com naturalidade e usar os nomes corretos de todas as partes, incluindo pênis e vulva, também é uma atitude muito importante para que a criança não associe vergonha a algo bom e digno. Os genitais são bons, como todo o corpo, e especiais. Eles precisam de cuidado, porque são parte da identidade e intimidade das pessoas, mas não precisam ser considerados vergonhosos.
A naturalidade, aliada à visão positiva do sexo, evita a confusão e o medo que respostas imprecisas podem gerar nas crianças. Por isso, nada de cegonhas na hora de explicar a origem dos bebês. Sempre há uma maneira de explicar a verdade em linguagem adequada para os filhos. Aliás, sempre quando o assunto é sexo, integrar nas respostas todas as dimensões: a biológica (o encontro amoroso dos corpos), a afetiva (a alegria), a dos valores da família (um amor comprometido que deseja formar família) e a espiritual (Deus se alegra com a vida que chega).
Também convém não se escandalizar com gestos e comportamentos próprios da idade. A exploração do próprio corpo na primeira infância não é conduta sexual; é curiosidade. Um menino ou menina de dois anos que mexe nos genitais não está sendo “lascivo”, mas curioso. O adulto reconhece o fato, distrai a criança com delicadeza e observa se há repetição compulsiva, que pode sinalizar ansiedade.
Em todas as situações, as duas mensagens para a criança devem ser:
- o corpo é bom e merece cuidado;
- as perguntas podem e devem ser trazidas aos pais.
Pornografia: falar cedo para proteger
A curiosidade é um gatilho poderoso e, sem a mediação amorosa da família, pode levar a primeiros contatos muito precoces e distorcidos com temas sexuais. Há relatos de crianças que começaram a consumir pornografia aos oito anos, depois de buscar na internet uma palavra que ouviram e não entenderam. E, infelizmente, a exposição das crianças a esse tipo de material é alta.
Alguns dados apontam que 53,8% dos jovens viram pornografia pela primeira vez entre seis e doze anos; mesmo sem ter tablet próprio, um amigo ou irmão mais velho pode mostrar. Explicar antes ajuda a prevenir: “Filho, a sexualidade é linda; mas existem pessoas que filmam para ganhar dinheiro. Se alguém te mostrar, não veja: aquilo não é a verdade sobre o amor.”
Duas atitudes familiares são decisivas aqui. Primeiro, responder cedo e com beleza às grandes perguntas, para que a curiosidade seja saciada pela verdade. Segundo, manter o canal de conversa permanentemente aberto: quando a informação vem da mãe e do pai, chega filtrada pelo amor e fortalece a liberdade da criança.
O risco do abuso: autoestima, confiança e linguagem clara
Prevenir o abuso exige, antes de tudo, que a criança já tenha ouvido de seus pais o que é a sexualidade e por que as partes íntimas são especiais e estão ligadas à transmissão da vida e à própria identidade. Mãe e pai devem dizer com todas as letras: ninguém pode tocar suas partes íntimas. Se um amigo no banheiro pedir para tirar a roupa, grite e corra; se um adulto fizer algo, venha contar imediatamente. Reforce sempre: em casa, não existem segredos que os pais não possam saber.
Ao mesmo tempo, é crucial construir autoestima e confiança. Crianças que se sentem amadas e capazes falam com mais facilidade quando algo as inquieta; já as que sofrem violência tendem a sentir-se sujas e culpadas, sem se reconhecer como vítimas. O canal de diálogo aberto – presença calma, escuta diária, perguntas que conectam – é a maior proteção que a família pode oferecer.
Modelos e conversa que conectam
Depois da primeira infância, a diferença sexual vai sendo interiorizada principalmente por modelos. Meninas observam a mãe; meninos, o pai. Isso não limita vocações, mas orienta a rota pedagógica: caprichar na qualidade da presença e na conversa que conecta. Uma boa medida é procurar sempre fazer aos filhos perguntas que acessam sentimentos, medos e amizades: “Do que você mais gostou nisso que fizemos?”; “O que você achou do filme?”; ou simplesmente um “Você está feliz?”. Claro: as perguntas não vão surtir efeito se o filho não perceber que o pai está dedicando verdadeira atenção a ele. É preciso dedicar um tempo de qualidade às crianças para que elas se sintam valorizadas. Do contrário, pensarão que não vale a pena falar nada aos pais já que eles “não me dão bola mesmo”.
O verdadeiro amor é lindo mesmo
Educar a afetividade é ensinar a amar bem: sentir, nomear, escolher e expressar o amor com dignidade, inclusive pelo sexo no momento adequado. Quando a criança cresce num clima de presença, palavras verdadeiras e hábitos bons, ela aprende que é amada e capaz, que pode confiar e também dizer “não” quando algo não a respeita. Conversas claras e serenas sobre o corpo e a origem da vida iluminam a curiosidade, fortalecem a liberdade e abrem caminho para relações futuras mais belas e responsáveis.


