Ao longo dessa série de artigos para celebrar os 30 anos do nosso colégio, temos insistido na ideia de que a Educação Personalizada enxerga cada criança e jovem como uma pessoa única. Essa visão da pessoa – que é o nosso grande diferencial e nos permite formar em todos os aspectos da personalidade – começou como visão de uma pessoa: o educador espanhol Victor García Hoz. Professor, pesquisador, mestre de mestres e pensador da educação, ele soube unir rigor científico, sensibilidade pedagógica e profundidade humana para desenvolver essa proposta educativa centrada na pessoa que inspira tantas escolas pelo mundo inteiro.
Educador desde o princípio
Victor García Hoz nasceu em 30 de março de 1911, em Campillo de Aranda, um povoado rural com pouca gente – mas muita fé – na província de Burgos (Espanha). Desde cedo, sentia-se atraído pela educação e por isso, ao terminar os estudos em sua terra natal, mudou-se para Madri a fim de continuar a sua educação. Assim, cursou, ao mesmo tempo, Magistério, na Escola Normal, e Filosofia e Letras, na Universidade Central (hoje, Universidade Complutense). A necessidade de dividir-se entre dois cursos não diminuiu sua dedicação e seu talento, e ao término do curso de Letras, em 1936, ganhou o chamado prêmio extraordinário, um título honorífico concedido aos estudantes que se formavam com as melhores notas.
O primeiro cargo de professor que assumiu ao concluir os estudos foi o de professor rural em uma escola de Beas de Segura, na província de Jaén. Essa escola contava com uma peculiaridade que impressionou e inspirou profundamente aquele jovem: ela tinha sido fundada pelos próprios pais dos alunos. Esse fato sedimentou em García Hoz a convicção de que era fundamental que os pais fossem protagonistas da educação dos filhos.
Após algum tempo no interior, García Hoz retornou a Madri para continuar seus estudos em Pedagogia, sempre conciliando-os com seu trabalho docente. Nesse período, enquanto preparava sua tese de doutorado, lecionou na Escola Normal e na Escola de Estudos Penitenciários.
O jovem professor era um homem de fé e, como muitos de sua idade na época, tinha uma profunda inquietação religiosa: que respostas o catolicismo pode dar às pessoas hoje? O tema de sua tese – “A pedagogia da luta ascética” – reflete essa preocupação e lhe obteve, em 1940, o primeiro título de Doutor em Pedagogia da história da Espanha.
Dois encontros marcantes
Além da intensidade dos estudos, esses anos também foram marcados por dois encontros intensos. O primeiro, em 1936, foi com Nieves Rosales Lasso de la Vega, uma jovem de Bilbao que conheceu em uma aula de grego na universidade: “Achei a moça mais bonita da faculdade”, disse Victor mais tarde. O sentimento foi correspondido. Os dois iniciaram um relacionamento e casaram-se em 1939, assim que a guerra civil espanhola acabou. Juntos, construíram um lar cristão em que a busca por dar a melhor formação aos filhos que viriam – seriam oito (cinco meninas e três meninos) – era constante. E como não se dá o que não se tem, ambos procuraram aprofundar a própria formação espiritual. E foi daí que veio o segundo encontro que marcou a vida de Victor García Hoz.
Nieves e Victor começaram a procurar um diretor espiritual em Madri e um sacerdote amigo indicou-lhes um nome: Josemaria Escrivá. As conversas entre Victor e o fundador do Opus Dei abriram para Victor horizontes que ele jamais imaginara e que respondiam às suas inquietações religiosas. Uma frase de São Josemaria que lhe ficou gravada na memória foi: “Deus te chama para caminhos de contemplação”.
No começo, aquele jovem acadêmico achou a sugestão estranha, mas depois veio a entender: santificar o trabalho, santificar-se pelo trabalho e santificar aos outros pelo trabalho. Foi então que Victor enxergou o valor humano e divino do labor humano, que viria a ter um papel central na pedagogia que viria a desenvolver.
Mestre de mestres
Depois do doutorado, Victor García Hoz ingressou como docente na Universidade Complutense de Madri, onde em 1944 foi nomeado catedrático de Pedagogia Experimental e Diferencial, também o primeiro cargo do tipo em seu país. Um ano mais tarde, tornou-se diretor do Instituto de Pedagogia do Conselho Superior de Pesquisas Científicas (CSIC), cargo que manteria por mais de três décadas. Em 1969, passou também a dirigir o Instituto de Ciências da Educação da Universidade Complutense. Durante toda essa trajetória, marcou profundamente gerações de professores e pesquisadores, que viam nele mais do que um mestre exigente: viam um modelo de educador, alguém que pensava, vivia e amava a educação.
Um dos seus feitos dessa época foi a renovação da psicologia educacional na Espanha, conferindo-lhe status de ciência empírica e autônoma. Para isso, buscou formação em Londres com o renomado Hans Eysenck, de quem herdou o gosto pela experimentação e o rigor metodológico. Incentivou pesquisas de campo, orientou dezenas de teses e promoveu seminários, congressos e colaborações internacionais. Dirigiu revistas acadêmicas como a Revista Española de Pedagogía e Bordón, e sempre encorajou seus alunos a buscar formação sólida e aberta ao diálogo com o mundo.
Em 1979, foi eleito membro da Real Academia de Ciências Morais e Políticas; em 1991, tornou-se acadêmico numerário da Real Academia de Doutores. Seus alunos, no entanto, sempre o chamavam por aquele que era o seu principal título: professor; um professor no sentido mais pleno e respeitável da palavra. Relatavam como suas aulas os marcavam não só pela clareza e profundidade, mas sobretudo pela paixão com que transmitia cada conteúdo, cada ideia, cada desafio formativo.
Florescimento de uma proposta educativa
Com base sólida na pesquisa científica, na sua experiência pessoal e numa visão profundamente humanista, Victor García Hoz começou a elaborar, nos anos 1960, os fundamentos do que chamaria de Educação Personalizada. Sua intuição era clara: não se educa em massa. Educa-se pessoa por pessoa.
Cada ser humano é único, irrepetível e chamado a desenvolver-se de modo integral. A missão do educador, portanto, não se limita a transmitir conhecimentos: é preciso formar a vontade, despertar a consciência moral, cultivar os afetos, abrir horizontes espirituais. Isso só é possível se houver um olhar atento e individualizado, capaz de acompanhar cada um em sua trajetória pessoal.
Foi também com esse espírito que, em 1963, nasceu a Fomento de Centros de Enseñanza: uma rede de colégios espanhóis fundada por pais de alunos que queriam oferecer uma educação de qualidade, com base nos princípios da Educação Personalizada. García Hoz participou da fundação como conselheiro e responsável pedagógico, e acompanhou de perto o crescimento do projeto. A Fomento tornou-se referência na Espanha e, com o tempo, passou a inspirar experiências semelhantes em outros países da Europa e da América Latina.
A proposta desenvolvida por García Hoz se apoia em pilares firmes:
- o reconhecimento da dignidade da pessoa humana;
- a liberdade como objetivo formativo e caminho educativo;
- o protagonismo da família;
- o trabalho como eixo pedagógico;
- a importância da convivência e do ambiente escolar;
- e a tutoria como forma privilegiada de acompanhamento personalizado.
Muito antes de se tornar discurso corrente ou moda pedagógica, ele já sabia – com base na razão e na experiência – que só se educa de verdade quando se parte da realidade viva de cada aluno.
Um legado que se renova
Victor García Hoz faleceu em Madri no dia 18 de fevereiro de 1998 (sua esposa viveu até 2015), deixando como herança não apenas livros, instituições ou teorias, mas um modo de olhar e educar a pessoa humana. Sua proposta – ao mesmo tempo exigente e cheia de esperança – continua a inspirar escolas que desejam formar pessoas livres, responsáveis, generosas e abertas à transcendência.
No Catamarã, esse legado é vivido a cada dia. A Educação Personalizada que orienta nossa proposta formativa tem origem no olhar desse mestre que viu mais longe. Quando escutamos nossos alunos com atenção, quando acompanhamos seu crescimento com firmeza e carinho, quando colocamos a pessoa no centro de cada decisão pedagógica, renovamos — com simplicidade e convicção — a missão que ele começou. E seguimos em frente, com gratidão por tudo o que recebemos e com o compromisso de continuar educando com sentido.


