Entre Abraços e Conversas: afetividade e sexualidade infantil

Entre Abraços e Conversas: afetividade e sexualidade infantil

Um convite à reflexão para as famílias do Colégio Catamarã, a partir da palestra de Ana Carolina Theodoro, coordenadora de Tutorias.

Educar a afetividade de um filho não começa em uma conversa específica, marcada para um dia futuro, quando ele “já tiver idade”. Começa muito antes, no colo, na despedida do portão, na história antes de dormir, no jeito como o pai e a mãe se tratam à mesa. É disso que falamos quando dizemos afetividade e sexualidade infantil: não de um tema isolado, mas da criança inteira e do amor que a forma desde os primeiros dias.

No Catamarã, acreditamos que ninguém conhece melhor o seu filho do que você. Por isso, este texto não traz fórmulas prontas. Ele oferece um olhar, alguns critérios e a tranquilidade de saber que esse trabalho, feito em parceria entre a escola e a família, já está acontecendo.

Por que falar disso na primeira infância

Os primeiros seis anos de vida são um período crítico. É aqui que se lançam as bases de todo o desenvolvimento da criança, em suas cinco dimensões: física, intelectual, volitiva, socioafetiva e transcendente. Essas dimensões não crescem separadas. A criança que ainda não sabe manifestar afeto morde, dá tapas ou puxa o cabelo do amigo, não por maldade, mas porque quer se expressar e ainda não tem linguagem para isso. O afetivo, o social, o cognitivo e o comportamental caminham juntos.

Falar de afetividade e sexualidade, portanto, é pensar no desenvolvimento integral do seu filho. Dar a mão ao chegar no colégio, sustentar com firmeza um “hoje você vai à escola” mesmo diante do choro, ou tornar mais carinhosa a despedida em um dia difícil: tudo isso já é educação da afetividade. Não se trata de intervenções pontuais, como soluços espaçados, mas de uma presença constante, com os pés no chão e atenta à criança real que está diante de nós.

Não existem pais perfeitos, e está tudo bem

Talvez a frase mais libertadora para uma família seja esta: os filhos não precisam de pais perfeitos. Precisam de você, com as qualidades e os defeitos que você tem. A educação avança aos tropeços, com acertos, recuos e recomeços, e isso é parte do processo, não um sinal de fracasso.

O desenvolvimento da criança também tem seus recuos naturais. O irmão mais velho que volta a pedir chupeta quando nasce o caçula, ou a criança em fase de alfabetização que volta a “falar como bebê”, está, no fundo, dizendo: “preciso de ajuda”. O importante é acolher esse momento sem permitir que ele se torne uma parada. Cada fase precisa ser vivida em seu tempo, porque, como lembrava o teólogo Romano Guardini, cada etapa tem um sentido próprio e não pode ser substituída por nenhuma outra.

Cada fase tem seu desafio

A psicologia do desenvolvimento nos ajuda a enxergar três momentos dentro da primeira infância, cada um com uma conquista a ser feita.

No primeiro tempo de vida, o bebê constrói a confiança. Quando o colo, o carinho e o atendimento às suas necessidades vêm de forma constante, ele aprende que o mundo é um lugar seguro. Nasce daí a esperança.

Em seguida, por volta de um ano e meio aos três anos, entra com mais força a figura paterna. É a fase do “quero” e do “não quero”, das birras e do prato que voa. Aqui a criança desenvolve a própria vontade. O pai costuma ter um papel especial em mostrar, com firmeza e sem severidade, que existe um limite. Esse limite não é o oposto do afeto: é parte dele. A criança que nunca encontra um limite vive da compulsão, e o desejo sem fronteiras dificulta, mais tarde, a capacidade de considerar o outro.

Dos três aos cinco anos, a criança já se sente parte de uma família e ganha a força da finalidade. Ela explora, sobe na árvore, quer ir ao brinquedo “dos maiores”, desenvolve interesses próprios e surpreendentes. Nosso papel é medir o risco real, sem cortar o impulso saudável de ir um pouco além. Quando reprimimos esse movimento de sair para o mundo, geramos inibição. Quando o acompanhamos, geramos iniciativa.

O apego seguro: entre proteger e não abandonar

A criança forma seu vínculo principal com quem cuida dela. Esse vínculo é a base segura a partir da qual ela explora o mundo. Um apego seguro nasce de uma presença equilibrada, que acolhe sem superproteger e que está disponível sem ceder a tudo.

O equilíbrio entre proteger e não abandonar costuma vir, com naturalidade, do olhar somado do pai e da mãe. Na mulher, é mais espontâneo o proteger e o cuidar por mais tempo. No homem, é mais espontâneo o lançar, o movimento para fora. Por isso a conversa entre o casal vale tanto. Não é preciso decidir tudo na hora, diante do parquinho. Vale combinar depois: “da próxima vez, vamos deixar ele tentar sozinho”.

Em São Paulo, a presença muitas vezes é mais limitada no tempo. O que está ao nosso alcance é cuidar da qualidade desses encontros. Ler um livro juntos, brincar no trânsito de contar os carros vermelhos, transformar o trajeto e a espera em convivência. Tudo isso educa, mesmo quando não falamos de sentimentos.

O casal é o primeiro espelho

A primeira fonte de aprendizado do amor está em casa, na relação entre o pai e a mãe. A criança observa tudo. Ela aprende, sem que ninguém precise explicar, que os conflitos podem ser resolvidos com palavras quando vê os pais dialogarem; que o afeto é bom e seguro quando vê o carinho entre eles; que errar não é o fim do mundo quando vê os pais pedirem desculpas e se reconciliarem.

Os pequenos rituais constroem essa base. O modo como se recebe quem chega em casa, a história contada toda noite, o programa de sexta à tarde. São gestos simples que formam muito mais do que longos sermões. E o filho que cresce vendo o pai tratar a mãe com atenção e cuidado guarda esse modelo para os próprios relacionamentos no futuro.

A primeira herança que vocês podem deixar é esse amor mútuo. Ele é a base de todo o resto.

A descoberta do corpo: natural, sagrada e delicada

Por volta dos jardins, a criança começa a perceber as diferenças entre meninos e meninas e a fazer suas descobertas. Isso é normal e parte da inocência própria da idade. Não há intenção sexual ali, há curiosidade. A nossa reação molda a atitude da criança em relação ao próprio corpo.

Por isso, a naturalidade é o melhor caminho. Quando uma situação acontece em casa ou na escola, um susto exagerado pode fazer a criança sentir que existe algo de errado com ela, e não com a situação. A serenidade, ao contrário, transmite segurança. É também o momento de ensinar, com calma, que existe uma intimidade. Nem todos podem ver ou tocar o corpo da criança, e há gestos que pertencem ao mundo dos adultos e gestos que pertencem ao mundo das crianças.

Vale a pena cuidar dos detalhes do pudor dentro de casa, observar com carinho hábitos como tomar banho junto ou ir ao banheiro acompanhado, e ir mostrando à criança, conforme ela cresce, que esse corpo é dela, é bom e é digno de respeito. Para nós, esse cuidado tem uma raiz mais profunda: o corpo tem algo de sagrado. Ajudar a criança a respeitá-lo é também ajudá-la a se reconhecer como alguém querido e único.

A linguagem que abre o mundo

Em certa fase, as crianças descobrem que algumas palavras provocam reações engraçadas nos adultos e passam a repeti-las rindo. Em vez de fazer da correção o centro da atenção, podemos ampliar o repertório delas. Mostrar que existem palavras bonitas, sonoras e divertidas de dizer, presentes em bons livros infantis. Assim, a criança aprende que a linguagem inteira é um espaço de descoberta e alegria, e que ela não precisa se divertir apenas com o que é feio.

É também o momento de nomear as coisas com as palavras corretas, com simplicidade, evitando que se formem segundas conotações. E quando vier a pergunta clássica, “de onde vêm os bebês?”, uma boa resposta para essa idade é dizer que o bebê cresce na barriga da mamãe, em um lugar especial, porque foi feito para nascer dentro de quem a gente ama. As explicações vão amadurecendo com a criança, e cada família encontra o seu modo de conduzi-las.

Uma formação dialogada, escola e família

Na Educação Infantil do Catamarã, esse acompanhamento já faz parte do dia a dia, por meio de programas como o “Vamos Crescendo”, que une a ação da família à da escola na formação das virtudes. Nossos professores recebem a mesma formação que oferecemos aos pais e tratam essas situações com naturalidade, mostrando limites e entendendo que, nessa idade, não há malícia.

Se você perceber que seu filho tem manifestado mais curiosidade sobre o corpo, converse com o tutor. A tutoria existia justamente para isso: alinhar os critérios entre a casa e a escola, para que a personalidade da criança se desenvolva por igual e seja a mesma em todos os ambientes. A ideia nunca é que a família e o colégio se encontrem para corrigir um problema, mas que caminhem juntos, ajudando-se sempre.

Três amores

A educação da afetividade, para nós, parte de uma certeza: a criança foi amada antes de tudo. Quando ela compreende que foi gerada a partir de um amor, que existem três amores cuidando dela, o do papai, o da mamãe e o de Deus, muda inteiramente o modo como ela se enxerga e como se relaciona com os outros. Pois o outro também é fruto de um amor como o dela.

Talvez seja esta a síntese de tudo. Não precisamos ser perfeitos. Precisamos estar presentes, atentos, e cultivar em casa o amor que será, para sempre, a primeira e a maior lição que nossos filhos vão aprender.

O Colégio Catamarã oferece, ao longo do ano, uma programação de palestras de formação pensada para os pais, muitas vezes ministradas por pais. Converse com a tutoria do seu filho para saber mais e para aprofundar estes temas.

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