Morro, Horácio; o veneno me domina já quase todo o espírito; não posso viver para saber o que nos chega da Inglaterra. Contudo, profetizo que há de ser escolhido Fortimbrás. Meu voto moribundo é também dele. Dize-lhe isso e lhe conta mais ou menos quanto ora aconteceu… O resto é silêncio. (Morre)
(William Shakespeare, Hamlet, Ato 5, Cena 2)
Hamlet morreu! A tragédia do príncipe dinamarquês já teve centenas de montagens em todo o mundo, além de versões marcantes para o cinema. Como não lembrar o filme de 1948, com Laurence Olivier, puro teatro filmado? Até os dias de hoje é considerado por alguns como a versão definitiva para as telas. Outros projetos cinematográficos vieram, como o Hamlet de Mel Gibson e Franco Zeffirelli de 1990, ou a versão completa de Kenneth Branagh de 1996, com 4 horas de duração. E ainda o criativo filme de Michael Almereyda, de 2001, em uma versão empresarial em que a trama se passa em New York, na multinacional Denmark Corporation, cujo presidente acaba de falecer, seu irmão desposa a viúva e controla a empresa, sob as vistas do sobrinho Hamlet, que desconfia que “há algo de podre na Dinamarca”. Cada geração terá o seu Hamlet.
Há dois anos, os autores desse artigo tiveram um novo encontro com Hamlet, talvez de maior impacto do que todos os anteriores. Isso se explica pelo envolvimento pessoal que tivemos com a montagem de um Hamlet pelos alunos do 9º ano do Ensino Fundamental do colégio onde um dos autores é diretor e, o outro, professor de teatro. O desafio foi colocado e os alunos o abraçaram e se deixaram envolver pela história e pelos personagens de uma forma vital, que os transformou. O teatro tem esse poder de trabalhar intensamente todas as dimensões da pessoa humana (corpo, alma e espírito). Na tarefa de formação dos adolescentes, temos no teatro um aliado e uma ferramenta única.

Toda educação deve partir de um projeto. A educação é uma tarefa eminentemente prática, e em toda tarefa prática o fim é o princípio da ação. Portanto, se alguém não sabe para onde se dirige, se o professor quer apenas deixar na cabeça dos seus alunos alguns conhecimentos “neutros”, perdeu o sentido teleológico do seu trabalho. Isso nos leva diretamente ao conceito de paideia, o ideal educativo e de formação ética da Grécia antiga. Com a paideia, os gregos pretendiam formar cidadãos capazes de governar a polis. Mas, que tipo de cidadão é esse? Segundo o Prof. Javier Aranguren, da Universidade de Navarra (Espanha), “trata-se de um homem com amplo elenco de habilidades e competências, conhecedor de geometria, álgebra, Homero, ginástica, retórica e filosofia. Na Grécia não se pretendia formar eruditos, mas algo muito mais ambicioso: que seus estudantes fossem homens livres, que soubessem governar a si mesmos dominando as paixões e levando a razão até suas capacidades mais elevadas. Em outras palavras, o projeto grego se traduzia no desejo de formar aristós (de onde vem a palavra aristocrata), homens repletos de areté, termo que costumamos traduzir por virtude, força, capacidade”.
Continua o Prof. Aranguren: “um bom aluno não se identifica necessariamente com aquele que acumula montanhas de conhecimentos (a caricatura do caxias, rapaz inteligente, mas vazio de sonhos – com frequência encontramos um em cada sala de aula –, que muitas vezes leva os prêmios e os aplausos), mas com aquele que otimiza suas capacidades chegando o mais longe possível. Quem consegue essa excelência (bonita palavra) recebe o nome de megalopsikos, isto é, magnânimo. Aristóteles caracteriza o homem de ânimo grande como alguém dedicado a tarefas importantes e capaz de funcionar por si mesmo (independente, autárquico). Essas são as qualidades da liderança. Por que parece, às vezes, que o líder tem que ser cretino, altivo ou egoísta? Na Grécia, ao contrário, ser líder significava ser virtuoso, excelente, aquele que vive a vida do modo mais propriamente humano, quer dizer, que é – luta por ser – prudente, justo, forte e temperado”. Com um bom grupo de pessoas possuidoras dessas características, com certeza o mundo funcionaria melhor.

Onde encontramos abundantes exemplos de aristós e as manifestações da areté senão na literatura? Os grandes autores, desde Homero, “esculpiram” em suas páginas figuras humanas extraordinárias com tal maestria que parece que as vemos ao nosso lado. Não é essa a tarefa do teatro, trazer à nossa vista e colocar ao nosso lado um Ulisses, um Aquiles, um Júlio César, uma Joana D’Arc ou um Hamlet? E o bom ator encarna o personagem e o traz à vida, por mais complexa que seja essa personalidade. Quando o ator consegue o “milagre” de forma satisfatória, acaba transformado pelo personagem e pode chegar a transformar a plateia. Aqui chegamos ao ponto de poder explicitar como o teatro pode ser essa ferramenta poderosa de desenvolvimento integral do aluno.
O teatro precisa de um tripé para acontecer: o ator, a história e a plateia. Voltemos ao nosso colégio, à montagem escolar da peça Hamlet. Em primeiro lugar, o ator. Ser ator exige uma preparação, é algo que se incorpora e se faz de modo consciente, porque exige um trabalho sobre si mesmo. A arte de atuar é uma antropologia na prática. Em outras palavras, deve-se aprender o domínio corporal, conhecer-se a si mesmo, ter um conhecimento aprofundado sobre as relações e emoções humanas, saber o que é uma ação humana e saber muito sobre caracterologia. Resumindo, ser ator exige muito estudo, leitura e reflexão, partindo daqueles mestres que tão bem estudaram a natureza humana, como Aristóteles, Santo Agostinho, Cervantes, Dostoievski, Machado de Assis, Shakespeare e tantos outros. Um bom professor de teatro leva seus alunos a lerem muito e discute com eles as ideias mais transformadoras desses autores.

A segunda perna do tripé é a história. Uma das funções da história no teatro é trabalhar sobre a fantasia do ator, sua memória e sua imaginação. Deixar-se moldar pelos clássicos, dar ordem ao caos interior e nas relações com os demais, entrar em diálogo com os grandes homens de nossa civilização, acessar o que há de universal na natureza humana: eis os ganhos obtidos ao se trabalhar com histórias enriquecedoras. Uma vez escolhido o tema ou o texto a ser montado, levará algumas semanas para a distribuição definitiva dos papéis. Primeiro é necessário que os estudantes se familiarizem com os personagens, “sejam apresentados” a eles, “os conheçam” de alguma maneira e convivam com eles. Fazer o exercício de decorar as falas, repassar as cenas e ter uma experiência inicial de atuação. Na montagem do Hamlet escolar que estamos comentando, aconteceu algo inusitado: dois alunos se identificaram de tal maneira com o personagem principal que foi impossível dizer com clareza qual faria melhor. Impôs-se a divisão salomônica: teríamos dois “Hamlets”, um em cada metade da peça, com a passagem de um ator a outro explicitada ao público. Os próprios alunos deram a solução e montaram o texto de transição, o que só fez aumentar o comprometimento com a história.
Finalmente, a plateia como terceiro elemento essencial para que aconteça o teatro. A plateia exige do ator um trabalho de doação generosa. Lembra constantemente ao ator que ele deve colocar-se constantemente no lugar de quem vê, que atua para alguém e procurando fazer chegar a mensagem da história integralmente a esse alguém. Qualquer interferência da vaidade pessoal estraga todo o processo. Vamos utilizar uma imagem gráfica: quando recebemos uma carta, a mensagem é o mais importante, não o envelope que a trouxe e, por isso, rasga-se o envelope e fica-se com a mensagem; o ator é o envelope, que não quer aparecer mais do que a mensagem. No teatro escolar, lidando com adolescentes, o professor tem uma preciosa oportunidade de trabalhar a vontade dos seus alunos, ajudando-os a ficar em segundo plano, dando passagem ao desfile da história e da sua mensagem. Como escreveu Roberto Mallet, “o ator é uma presença e um presente que se dá”.[3]

Hamlet foi encenado com paixão pelos alunos do 9º ano do colégio. O texto foi adaptado pelo professor para que a peça não passasse de 40 minutos, preservando o essencial da história e a força do argumento shakespeariano, que chega ao fundo do coração. O público reagiu com emoção e sensibilidade, captando a profundidade da mensagem. Acrescente-se ainda que os alunos fizeram a opção de não trabalhar com cenários, tendo como fundo apenas um pano negro, deixando os atores ainda mais em evidência, já que o público não tinha para onde desviar o olhar. A peça escolar Hamlet foi encenada ainda, no ano seguinte, em dois festivais de teatro, um regional e outro nacional. A plateia e os jurados, estes profissionais de longa jornada do teatro, ficaram encantados com o tom correto que os atores conseguiram dar à dramaticidade ou à comicidade dos seus personagens, segundo os casos. Hamlet, também nessa montagem, continua a enfrentar o espectador atual com realidades muitas vezes voluntariamente esquecidas – o pecado, a culpa, o arrependimento, a traição, a virtude –, que interpelam a gritos à consciência.
Dostoievski, disse que buscava com sua literatura “mostrar o homem no homem”. Com o teatro podemos dizer o mesmo, com um acréscimo: “mostrar o homem no homem pelo homem”, pois no teatro a matéria para falar do homem não são palavras, mas seres humanos. É a arte mais completa e por isso a mais efêmera. E nessa fugacidade da criação teatral da história que está sendo contada, onde tudo se dá naquele momento e não há uma segunda chance para acertar (não há dublê, nem refilmagem da cena), o ator busca doar-se para realizar a transmissão mais perfeita: fazer chegar ao público aquele princípio espiritual que já o transformou, para que a plateia também seja transformada por ele. Reviver as virtudes dos heróis de uma história, sentir em si a experiência da maldade que é capaz de abrigar o coração humano ou experimentar o que faz trágica ou cômica uma vida: que outro âmbito senão o teatro possibilitaria sentir a grandeza da virtude, talvez sem tê-la, ou chafurdar na lama da maldade e dos vícios sem apossar-se deles? Essa é a “magia” do teatro e essa é a forma tão prática e eficaz com que contribui para a formação do caráter de uma pessoa. Definitivamente, para os nossos alunos, Hamlet não morreu!
Texto publicado originalmente em:
https://www.linkedin.com/pulse/o-teatro-e-forma%C3%A7%C3%A3o-da-pessoa-claudio-alberto-rigo-da-silva/
Autores:
Claudio Alberto Rigo da Silva
Membro do Conselho do Colégio Catamarã
Roger Campanhari
Professor de Teatro no Colégio Catamarã


