Baseado na palestra de formação para pais realizada no Colégio Catamarã, com Flávia Regina Theodoro.
Ler para um filho pequeno pode parecer só mais uma entre tantas coisas boas que cabem no dia. E de fato sempre há muito o que fazer com uma criança de dois ou três anos. Mas a leitura tem uma particularidade: ela é das poucas coisas que a criança leva para o resto da vida. Quanto mais cedo começa, mais natural ela se torna, a ponto de o livro deixar de ser uma proposta do adulto e passar a ser parte da casa.
Foi esse o tema de uma das nossas palestras de formação para pais. Reunimos aqui o que ficou dela, com o que é possível fazer já nesta semana.
Os mil primeiros dias
Os três primeiros anos concentram um ritmo de desenvolvimento que a criança não voltará a ter. Nesse período, o cérebro forma mais de um milhão de conexões neurais. Ainda que pareça que o bebê não está entendendo nada, ele está conectando tudo.
A repetição, que tantas vezes cansa o adulto, é justamente o que favorece a mielinização, o processo que reveste os neurônios e consolida o que foi aprendido. A leitura também ajuda a reduzir o estresse, algo que os pais de crianças mais agitadas percebem sem precisar de explicação técnica.
Vale lembrar de onde tudo isso parte. O primeiro som que a criança conhece é a voz da mãe, ouvida não apenas pelo ambiente, mas pelo próprio corpo dela, que ressoa. Antes de nascer, o bebê já percebe as modulações: o tom mais alto, o mais baixo, o mais doce. Ele não entende as palavras, mas entende algo antes delas. Ler em voz alta é continuar essa conversa que começou cedo.
O que a leitura desenvolve
Vocabulário. Os livros trazem palavras que a rotina não traz. Castelo, carruagem, moinho. Nada disso existe na rua de casa, mas existe no livro, e é assim que o repertório da criança se amplia antes mesmo de ela saber ler.
Memória e antecipação. Se você entrega o mesmo livro pela segunda vez, a criança tenta lembrar. “E agora, quem aparece?” “O lobo!” Ela ainda não tem noção clara de tempo: tudo que passou foi ontem e tudo que virá é amanhã. Por isso, se você prometer o parque no domingo, ela vai perguntar todos os dias. No livro é diferente. Ali ela sabe o que vem, e essa segurança é parte do prazer.
Experiência emprestada. A criança ainda não tem experiência própria e aprende por imitação. O livro oferece um ambiente seguro para ensaiar o que ela ainda não viveu. Se Chapeuzinho conversa com um estranho no caminho, dá para intuir onde aquilo costuma dar, sem precisar descobrir na pele. Poucos de nós estiveram no Egito e todos sabemos o que é uma pirâmide. Para uma criança, cujo mundo ainda se resume à casa, à rua e à escola, o livro amplia o horizonte antes que ela precise enfrentá-lo.
Os afetos ganham nome. Boa parte do choro de uma criança pequena vem de não saber o que está sentindo. Na história, o personagem ficou com raiva, com medo, com ciúme. Ao nomear o que acontece na página, a criança começa a reconhecer o que acontece nela. E o que tem nome assusta menos.
Virtudes e consequências. Há uma história antiga de dois meninos que ajudam duendes a carregar carvão e recebem, cada um, um embrulho. Na manhã seguinte, o carvão virou ouro. Um deles quer voltar e repetir o gesto para ganhar de novo; o outro entende que a recompensa veio porque ajudaram sem esperar nada. O primeiro volta, ajuda de olho no prêmio, e seu ouro vira carvão outra vez. Não é só a ação que conta, é a intenção. Nada disso precisa ser dito em forma de “moral da história”. Basta perguntar depois: por que você acha que aconteceu isso com ele?
Sabemos que a vida real nem sempre funciona assim, que pessoas boas sofrem e pessoas ruins às vezes prosperam. Ainda assim, a história dá à criança um primeiro mapa de causas e consequências, e isso é muito para quem está começando.
Como a leitura entra em casa
Pelo exemplo, antes de tudo. Não adianta pedir que a criança pegue o livrinho dela enquanto o adulto fica no celular. Ela percebe a discrepância e aprende por imitação. Flávia contou que sua mãe, anos depois, foi reabrir alguns livros e encontrou todos rabiscados de canetinha: os filhos ficavam ao lado dela enquanto lia. Estragaram alguns livros, mas nunca precisaram ser convencidos de que ler era coisa de gente grande.
Com os livros ao alcance. A criança precisa saber onde eles estão e quais pode pegar. Junto da caixa de brinquedos costuma funcionar. E sem apego: alguns vão ser rasgados, mordidos, molhados. Faz parte.
Com uma rotina possível. Nem todo dia dá, e está tudo bem. Dez ou quinze minutos numa noite fixa da semana já constroem o hábito. Sexta-feira depois do jantar, no sofá ou dentro de uma cabana improvisada. O que transforma aquilo em momento não é a duração, é a regularidade.
Como convite, nunca como cobrança. Todos nos lembramos de algum livro obrigatório de escola que odiamos por décadas. Com os maiores, o caminho é a curiosidade: se a criança ama dinossauros, comece por dinossauros. Flávia contou a história de um colega de trabalho cuja filha pré-adolescente não lê nada que ele elogie, mas devora qualquer livro sobre o qual ele diga “não sei se você vai gostar”.
Com o pai junto. Costuma-se dizer que, para a criança construir a própria vida de fé, importa que ela veja o pai praticando, e não apenas a mãe. Com a leitura acontece algo parecido. Se ler é sempre tarefa de um só, a criança entende que aquilo pertence a um só.
O livro certo para cada idade
De zero a três anos, o livro é primeiro um objeto. Os de pano, de banho e os cartonados servem para a experiência tátil: isto é um livro, eu consigo carregar, eu consigo virar as páginas. Depois vêm a sonoridade e a repetição. É também a hora de ir dando os nomes certos às coisas, sem corrigir com dureza: “a mumu, a sua vaquinha”, “au-au, esse é um cachorro”. As narrativas devem ser bem concretas. Chesterton observou que, para uma criança de sete anos, “Pedro abriu a porta e viu um dragão” é maravilhoso; para uma de três, basta “Pedro abriu a porta”, porque abrir a porta ainda é uma façanha.
Dos quatro aos seis, entram narrativas mais longas, ilustrações mais ricas e rimas. A criança começa a recontar e a fingir que lê, virando as páginas de um livro que sabe de cor. É também a fase dos porquês. Não é preciso responder a todos com rigor científico. Muitas vezes ela só quer que você continue no tema, e devolver a pergunta resolve: “e por que você acha que o céu é azul?”. Quando a pergunta é importante, aí sim vale desenvolver: “por que ele fez isso?” “Porque ficou chateado. Quando você fica chateado, você também faz assim?”
Algumas estruturas ajudam nessa fase:
- Histórias repetitivas e cumulativas, como O Nabo Gigante ou A Casa Sonolenta. Na terceira repetição, a criança já completa a frase com você.
- Cotidiano e família, como O Café da Manhã da Família 14. São histórias simples, e é exatamente isso que faz a criança pensar: eu também tomo café da manhã.
- Clássicos, como Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve e Pedro Coelho. Eles formam o repertório compartilhado a que todos nós fazemos referência sem perceber.
- Narrativas mais ricas para os maiores, com textos mais longos e ilustrações em que vale a pena se demorar.
Sete coisas que ajudam na hora de ler
- Use a voz. “Achamos o tesouro” dito sem entonação não ensina nada. Dito com entusiasmo, ensina o que é entusiasmo. Não é preciso ser ator, e a única pessoa que está vendo é uma criança que já acha tudo o máximo.
- Faça pausas. “E agora, o que será que vai acontecer?” Elas adoram.
- Dê corpo aos personagens. Uma peça de Lego vermelha vira o bombeiro, a boneca vira a Cinderela, a almofada vira o castelo. Nessa idade a abstração funciona muito bem, e não é preciso ter o boneco certo.
- Tenha paciência com a repetição. Maria Montessori observou uma criança que passou meia hora limpando a mesma mesa, já limpa. A criança não estava limpando a mesa, estava aprendendo a limpar. Com a história é igual: ela não quer saber o enredo, quer aprender o enredo, inclusive para poder contá-lo sozinha. Quando cansar, combine: “esta é a última hoje, amanhã a gente lê de novo”.
- Deixe a criança se mexer. Se ela sobe no sofá e desce, aproveite: o personagem também subiu a montanha. Movimento não é problema. Com o tempo vem a concentração, e enquanto isso o importante é que ela associe leitura a algo bom.
- Não precisa ler tudo. Se o texto é longo demais para a idade, conte a história pelas ilustrações. Você já sabe como termina a Cinderela. Leia o livro antes e depois conduza pelas figuras, até que ela aguente o texto inteiro.
- Converse depois. “O que você achou?” revela do que ela gosta, se prefere as partes de ação ou os bichos. Mais importante: cria o hábito de falar com você sobre o que lê.
O que isso rende dez anos depois
Esse último ponto é um investimento de longo prazo. Enquanto os filhos são pequenos, você lê tudo com eles. Depois eles leem sozinhos, e aí acompanhar depende inteiramente de eles quererem contar.
Se puder, leia antes. Se o livro não é para a idade, sente e explique, dizendo inclusive quando poderá ser lido. Se ele já leu e gostou de algo que você reprova, evite o bloqueio imediato: quem percebe rejeição para de contar. Escute a história toda, depois comente, pergunte, ajude a pensar. Com o tempo, ele forma o próprio critério e passa a dizer coisas como “li, mas não gostei muito, o personagem mente demais”. Esse é o objetivo.
Na escola e em casa
No Catamarã, a leitura nunca é apenas mais um item na lista de conteúdos. Na Educação Infantil, a pré-alfabetização acontece pelo método fônico analítico-sintético, com narrativas, poemas, canções, trava-línguas e adivinhações. Nos anos seguintes, os alunos estudam, decoram e declamam poemas, ampliando compreensão, vocabulário e fluência. Cada texto trabalhado em sala é escolhido para ser adequado à idade e para que seu filho cresça também como pessoa ao lê-lo.
Mas escola nenhuma forma leitores sozinha. Como sempre dizemos, aqui nós educamos com a família, e é em casa que o hábito se enraíza. Dez ou quinze minutos por semana bastam para começar.
O horizonte de uma criança pequena ainda é estreito. Cada livro o alarga um pouco. Quando o mundo chegar, e ele chega rápido, ela já terá estado em muitos lugares.
Sobre a palestrante
Flávia Regina Theodoro é autora do livro infantil Caio e as Árvores Cabeludas. Trabalha no ramo editorial há muitos anos e dedica sua trajetória ao universo dos livros e da leitura.


