Leitura e formação do imaginário

Nesse sentido, é importante ter consciência de que há muito a ser feito. O PIRLS (“Progress in International Reading Literacy Study” — Estudo Internacional de Progresso em Leitura) é um estudo internacional semelhante ao PISA que avalia, a cada cinco anos, a competência leitora de estudantes do 4º ano do Ensino Fundamental, medindo habilidades como localizar informações, interpretar significados e refletir sobre o conteúdo de textos.

Em 2021, o Brasil participou pela primeira vez do PIRLS, com 187 escolas públicas e privadas. Os resultados não foram animadores:

País Pontuação Média
Singapura 587
Hong Kong 573
Rússia 587
Inglaterra 558
Estados Unidos 549
Espanha 528
Chile 528
México 434
Brasil 419

A média de desempenho dos estudantes brasileiros foi de 419 pontos, ficando abaixo da média internacional de 500 pontos. Apenas 26% dos alunos atingiram ao menos o nível intermediário de competência, enquanto nos países mais desenvolvidos essa proporção chega a 75%.

Esse retrato evidencia a urgência de iniciativas que fortaleçam a compreensão leitora desde os primeiros anos de vida. Mais uma vez, os pais são chamados a serem protagonistas da educação dos filhos e a fomentar, em parceria com a escola, os hábitos de leitura. Vale notar que, segundo o PIRLS 2021, crianças cujos pais cultivam o hábito da leitura apresentam desempenho superior.

O que a ciência revela sobre a leitura

A literatura exerce um papel fundamental desde os primeiros contatos com a linguagem. Ela favorece a alfabetização ao ampliar o repertório verbal da criança, fortalecer a consciência fonológica e desenvolver a compreensão textual. Crianças expostas às histórias bem contadas têm mais facilidade em aprender a ler e escrever, pois seu pensamento se organiza em narrativas, em sequências lógicas e em significados mais profundos.

Para fazermos uma ideia da importância da leitura, a neurociência tem demonstrado, por exemplo, que a leitura é uma atividade complexa, que estimula diferentes áreas do cérebro simultaneamente. Quando uma criança lê, ela ativa circuitos relacionados à linguagem, à memória, à imaginação e à tomada de decisão. O ato de ler constrói redes neurais que são fundamentais para a aprendizagem e para o desenvolvimento da inteligência. Ou seja, o desenvolvimento das competências leitoras não serve apenas para aprender o que a professora de português ensina, mas para aprender no geral, aprender a aprender.

Por outro lado, a leitura superficial e fragmentada — comum no ambiente digital — não proporciona os mesmos benefícios. Para formar um pensamento estruturado, é essencial cultivar a leitura profunda: aquela que exige atenção, reflexão e capacidade de sustentar o raciocínio ao longo de um texto.

A leitura forma mais do que a inteligência

Por mais maravilhoso que seja ler para aprender os conteúdos escolares, há ainda outro motivo pelo qual ler é tão importante: a construção do imaginário.

O imaginário é o “solo” no qual a inteligência e a criatividade florescem. Antes de dominar conceitos abstratos ou desenvolver argumentação crítica, a criança precisa formar imagens interiores ricas e ordenadas. E é precisamente na leitura de boas histórias que alimentará esse processo.

A leitura é também um instrumento poderoso de formação moral. Ao ouvir ou ler um conto, a criança recria cenários, personagens e situações em sua mente. Ela aprende a imaginar o que não está diante dos olhos, a seguir o encadeamento de fatos, a compreender a relação entre causas e consequências. Mais ainda: a leitura desperta sentimentos nobres, como coragem, justiça, lealdade e amizade, ajudando a construir seu senso moral.

Por meio das histórias, as crianças aprendem que o bem deve ser buscado e que o mal tem consequências; que heróis enfrentam dificuldades, mas perseveram e que a verdade, a beleza e a bondade têm valor em si mesmas. Tudo isso é absorvido não por meio de discursos diretos, mas por imagens vivas que permanecem na memória e modelam o coração.

Por isso é que o contato com a boa literatura desde cedo é um dos pilares da formação integral. E por isso é importante buscar leituras que nutram a alma dos filhos.

Que livros escolher?

Quando pensamos na formação do imaginário das crianças, é natural lembrar dos clássicos que atravessaram gerações: contos de fadas, fábulas, mitos e narrativas de heróis. Essas histórias permanecem porque abordam temas universais com imagens poderosas e inesquecíveis. No entanto, é importante reconhecer que também há livros recentes de grande valor literário, que dialogam com o universo contemporâneo das crianças e têm potencial para enriquecer seu imaginário com a mesma profundidade.

A tarefa é descobrir bons livros. Isso exige critério, escuta e observação dos interesses das crianças. Uma boa obra literária não é definida apenas pela data de publicação, mas pela qualidade da linguagem, pela construção narrativa e pelos valores que transmite de forma simbólica e envolvente. O que se busca é oferecer à criança histórias que a desafiem a imaginar, sentir, refletir e crescer.

Outro ponto a ser considerado, sempre, é a liberdade dos filhos. Não adianta dar às crianças um livro que é considerado um clássico universal, mas que elas acham “chato”. Ao agir assim, corremos o risco de que elas passem a associar leitura com “tortura”. O ideal para criar o hábito de ler é procurar livros pelos quais elas se interessem e dialoguem com o momento que estão vivendo. Mais adiante, quando tomarem gosto pela leitura, chegarão aos clássicos e aos livros mais complexos por vontade própria e saberão apreciar seu valor.

Nesse sentido, cada família pode, com o tempo, construir sua própria “biblioteca do coração”: um conjunto de livros que marcaram a infância, que foram lidos e relidos com carinho, que provocaram perguntas e deixaram lembranças duradouras.

Em resumo, mais do que listar títulos, o essencial é cultivar uma relação viva com os livros e buscar, com critério e sensibilidade, aquelas histórias que ajudem cada criança a construir um imaginário rico, belo e coerente com os valores que desejamos transmitir.

Como estimular a leitura em casa

O primeiro passo para formar um leitor é criar um ambiente onde a leitura seja vista como uma experiência prazerosa e significativa. Algumas sugestões práticas:

  • Comece cedo: ler para bebês e crianças pequenas fortalece o vínculo afetivo e desenvolve a linguagem.
  • Escolha boas obras: prefira livros que estimulem a imaginação, com histórias bem escritas e valores positivos.
  • Crie rituais de leitura: reserve momentos diários para ler juntos, de forma tranquila e sem pressa.
  • Dê o exemplo: crianças que veem os pais lendo tendem a valorizar mais a leitura.
  • Converse sobre as histórias: pergunte o que a criança achou do livro, o que ela imaginou, o que aprendeu.

Pequenas atitudes diárias fazem uma enorme diferença na formação do imaginário e do gosto pela leitura. Marcar um horário — nem que seja de quinze minutos — para que cada membro da família leia um pouco faz toda a diferença.

Semear o imaginário é construir o futuro

Investir na leitura é investir na pessoa. É formar seres humanos mais inteligentes, criativos, sensíveis e éticos. É dar às crianças ferramentas para interpretar o mundo, sonhar com um futuro melhor e agir com sabedoria.

A leitura abre horizontes e constrói pontes invisíveis entre o que somos hoje e o que poderemos ser amanhã. Ao cultivar o imaginário dos nossos filhos, estamos lançando sementes que florescerão em inteligência, caráter e beleza de alma.

Que possamos, juntos, família e escola, inspirar nossas crianças a amar a leitura — e, com isso, a crescer em plenitude.

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