Muitas pessoas, às vezes mães e pais de alunos, perguntam-nos por que a letra cursiva nunca saiu do currículo no Colégio Catamarã. De fato, enquanto nos últimos anos muitas escolas têm optado por ensinar exclusivamente a letra bastão, nós mantivemos a cursiva como parte central do nosso processo de alfabetização. Não por apego ao passado, mas porque o nosso percurso pedagógico sempre apoia-se em uma lógica que começa no corpo e chega à escrita. E a cursiva é parte essencial dessa lógica.
É essa lógica que explicaremos no artigo, em que mostramos como esse trabalho acontece no dia a dia do e o que as pesquisas mais recentes dizem sobre essa escolha.
Tudo começa antes da escrita
No Catamarã, a alfabetização não começa no 1º ano. Ela é construída desde a Educação Infantil, por meio de experiências intencionais que preparam o corpo, a linguagem, a consciência fonológica e a coordenação fina para o ato de ler e escrever.
Antes de decodificar palavras ou escrever frases, a criança precisa desenvolver habilidades fundamentais: consciência corporal, coordenação motora fina, percepção auditiva, compreensão da relação entre som e símbolo, bem como possuir um repertório oral ampliado. Para isso, o trabalho da Educação Infantil é determinante: ele constrói as bases que permitem à criança chegar ao Fundamental com prontidão para se alfabetizar com método, autonomia e segurança.
Esse percurso tem etapas claras, cada uma com um propósito definido.
Psicomotricidade: o corpo como ponto de partida
Como todo pai observa, até por volta dos 6 anos as crianças passam por um momento privilegiado de desenvolvimento motor. É nessa fase que os filhos aprendem a dominar as mãos, as pernas, a boca, e vão dos balbucios até a capacidade de falar, de andar, de segurar o lápis, de participar de brincadeiras mais complexas.
No Catamarã, a psicomotricidade é parte essencial da rotina desde os 2 anos de idade. Nossos alunos têm aulas diárias de psicomotricidade durante toda a Educação Infantil e também no 1º ano do Fundamental. No 2º ano, a frequência passa a ser semanal, mantendo o acompanhamento necessário para o desenvolvimento contínuo.
Essas aulas integram circuitos psicomotores lúdicos voltados ao desenvolvimento da coordenação motora ampla, da percepção espacial e do ritmo. Os circuitos são séries de atividades que acontecem simultaneamente, envolvendo equilíbrio, tonicidade, organização espacial e organização corporal. Eles ajudam a criança a fazer movimentos coordenados, planejados e sequenciados de forma harmônica e precisa.
O trabalho psicomotor estimula que corpo e mente trabalhem juntos. Quando uma criança aprende a pular corda, lançar uma bola ou desenhar, está desenvolvendo habilidades psicomotoras que vão muito além da atividade física: concentração, autoestima, interação social, atenção, planejamento.
E o que isso tem a ver com alfabetização? Nesse contexto, o impacto da psicomotricidade é ainda mais direto. Equilíbrio, lateralidade, coordenação global, orientação espacial, ritmo: todos esses aspectos trabalhados diariamente no Infantil, preparam a criança para a compreensão da direção da escrita, para a postura adequada, para a atenção sustentada e para a organização do corpo em atividades de mesa.
A lateralidade, por exemplo, é o processo pelo qual o corpo define um lado dominante. Quando essa definição está consolidada, as atividades são executadas com mais rapidez e eficiência. Isso inclui a escrita. O programa de psicomotricidade do Catamarã trabalha essa habilidade de forma intencional, porque sabemos que ela influencia diretamente a qualidade do gesto gráfico que virá em seguida.
Grafomotricidade: da coordenação ampla ao traço fino
A partir da base psicomotora, a criança avança para exercícios graduados de grafomotricidade: curvas, espirais, linhas ascendentes e descendentes, movimentos contínuos. Esse trabalho desenvolve o controle motor fino necessário para a escrita, incluindo a postura correta ao segurar o lápis e a coordenação dos movimentos para formar letras e números.
As aulas de psicomotricidade do Catamarã contemplam todo o desenvolvimento das habilidades manuais e das atividades grafomotoras. Os circuitos psicomotores trabalham o sequenciamento e o planejamento motor, desde o controle gestual amplo, que vai se aprimorando até o controle motor fino, passando pela coordenação olho-mão e pela já mencionada lateralidade.
Essa preparação permite algo fundamental na metodologia do Catamarã: a cursiva é introduzida ainda no Infantil, de modo natural, lúdico e corporal. A criança não é apresentada à cursiva de forma abrupta. Ela chega à cursiva como consequência natural de um trabalho motor que vem sendo construído desde os 2 anos.
Quando chega ao 1º ano, a criança já domina os gestos básicos das letras, o que facilita a fluidez do traçado, uma postura de pinça mais madura e uma escrita mais legível e organizada.
Método fônico: da oralidade à leitura
Paralelamente ao trabalho motor, o Catamarã adota o método fônico analítico-sintético de forma estruturada desde o Infantil. Esse método tem bases científicas sólidas e trabalha a consciência fonológica e fonêmica de maneira contextualizada. Seu filho aprende a associar sons e letras por meio de exercícios, mas também por meio de contos, poemas, adivinhas e trava-línguas, o que torna o aprendizado muito mais significativo.
A criança é estimulada a identificar e discriminar sons, reconhecer padrões rítmicos e sonoros, entender a relação fonema-grafema e desenvolver consciência fonológica antes de formalizar a leitura. Tudo isso acontece de forma lúdica e natural, respeitando o ritmo de desenvolvimento de cada aluno.
Poesias, cantigas, parlendas e trava-línguas fazem parte do cotidiano, tanto no Infantil quanto no Fundamental, por meio da Passagem diária do Mural, recitação, leitura em voz alta e exploração sonora de textos curtos. Essas práticas ampliam repertório, fortalecem memória auditiva e fluência verbal, pilares diretos da alfabetização.
A educação musical também desempenha um papel importante nesse processo. As atividades de audição de música clássica acontecem diariamente e desenvolvem a sensibilidade auditiva e a estética, além de ampliar o registro de sons da criança, fortalecendo a consciência fonológica essencial para a leitura e a escrita.
No Fundamental, esse percurso continua com atividades sistematizadas de correspondência som-letra, leitura progressiva e ampliação de vocabulário. Os alunos são incentivados a discutir, decorar e declamar poemas e cantigas, ampliando assim sua compreensão, seu vocabulário e sua fluência de leitura.
A cursiva no Fundamental: consolidação e fluência
O 1º ano é o momento de consolidação. A psicomotricidade continua diária, agora com foco no aprimoramento das habilidades voltadas à escrita. As aulas ajudam o aluno na percepção da postura correta, da tonicidade muscular e da coordenação dos movimentos para a escrita. É nesse momento que a criança amplia seu repertório psicomotor e refina o gesto gráfico que começou a ser construído no Infantil.
Dos cartazes e cantinhos de leitura do Infantil à biblioteca de sala, murais e textos variados do Fundamental, o mesmo princípio se mantém: a leitura e a escrita fazem parte da vida da criança, não apenas da aula de alfabetização.
Quando essa base é bem construída, o impacto nos Anos Iniciais do Fundamental é visível: entrada mais rápida e segura na leitura, maior autonomia nos registros escritos, desenvolvimento fluido da cursiva, compreensão sólida da lógica do sistema alfabético, leitura com ritmo, precisão e compreensão, escrita mais organizada, com consciência fonêmica e ortográfica. E, talvez o mais importante: mais prazer em ler, escrever e aprender.
Tudo isso acontece dentro do modelo de Educação Personalizada do Catamarã, em que cada aluno é acompanhado de perto, com tutoria individualizada e parceria constante com as famílias. O professor não apenas ensina os conteúdos de sua disciplina: ele atua como mediador e orientador, ajustando as estratégias conforme as necessidades individuais de cada criança. E os pais participam ativamente por meio das tutorias periódicas, garantindo que a ação educativa da família e da escola caminhem juntas.
O que diz a Ciência: por que a cursiva importa
O percurso que descrevemos reflete uma convicção pedagógica que, nos últimos anos, a neurociência tem confirmado com dados cada vez mais robustos.
A escrita cursiva ativa o cérebro de forma única
Em janeiro de 2024, pesquisadores da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia (NTNU) publicaram um estudo na revista Frontiers in Psychology que comparou a atividade cerebral de universitários enquanto escreviam à mão e enquanto digitavam. Os resultados mostraram que a escrita manual é capaz de promover uma conectividade muito mais ampla entre diferentes regiões do cérebro, especialmente nas áreas ligadas ao processamento motor, visual e à memória.
A escrita cursiva exige do cérebro uma coordenação motora fina e contínua, com transições fluidas entre letras que ativam de forma mais intensa o córtex motor e o cerebelo. Cada letra exige planejamento motor, controle de pressão e ajuste constante da mão. Diferente da digitação, que se limita a movimentos repetitivos dos dedos, a escrita à mão integra feedback visual, tátil e motor em tempo real. Neurocientistas como Marieke Longcamp, da Universidade Aix-Marseille, consideram a escrita manual uma das atividades motoras mais complexas que o cérebro é capaz de realizar.
Cursiva e memória: conexões que ficam
Um estudo anterior da mesma equipe da NTNU, publicado em 2020, analisou crianças de 12 anos e adultos jovens com eletroencefalografia de alta densidade. Os resultados mostraram que a escrita cursiva e o desenho geram padrões de oscilação cerebral (ondas theta e alfa) associados à consolidação da memória e ao aprendizado. A digitação gerou padrões distintos e menos conectados.
Essa ativação integrada cria conexões neurais mais fortes e duradouras. Quando a criança escreve em cursiva, ela não está apenas registrando informação: está ativando simultaneamente áreas do cérebro responsáveis pelo controle motor, pelo processamento visual, pela linguagem e pela memória.
A neurocientista Audrey van der Meer, líder dessas pesquisas, foi direta em sua conclusão: crianças que não recebem instrução em escrita manual correm o risco de não desenvolver plenamente o potencial de seus cérebros. E alertou que, se as escolas abandonarem o ensino da escrita à mão, poderemos ter gerações com essa lacuna no desenvolvimento.
Cursiva desde cedo: um único padrão, mais eficiência
A ciência também esclarece um ponto que interessa diretamente ao método do Catamarã. Ao ensinar um único padrão de movimento para a escrita, a cursiva, a criança desenvolve o controle automático dessa habilidade com mais eficiência. Isso libera as áreas “pensantes” do cérebro para outras funções cognitivas: raciocínio, criatividade, resolução de problemas.
Crianças que aprendem primeiro a letra bastão e depois transitam para a cursiva precisam, na prática, aprender dois sistemas de escrita, o que pode gerar confusão e atrasar o desenvolvimento da fluência. Quando o Catamarã introduz a cursiva de forma natural ainda no Infantil, a criança constrói desde cedo um repertório motor coeso, que se consolida sem rupturas.
Pesquisas de Virginia Berninger, da Universidade de Washington, demonstram que crianças que dominam a escrita cursiva conseguem escrever mais rápido e expressar mais ideias em suas redações. A velocidade e a eficiência da cursiva permitem que o aluno se concentre na coesão de suas ideias, sem precisar pensar na formação de cada letra.
Escrita manual e leitura: processos interligados
Pesquisadores da Universidade de Indiana, em estudo publicado em 2012 por Karin James e Laura Engelhardt, utilizaram ressonância magnética para investigar os efeitos da escrita manual no desenvolvimento cerebral de crianças pequenas. Os resultados mostraram que a escrita à mão ativou um “circuito de leitura” no cérebro, algo que não ocorreu com a digitação nem com o simples traçado de letras. A escrita manual, portanto, facilita o reconhecimento de letras e contribui diretamente para a aquisição da leitura.
Esse achado é especialmente relevante para o nosso trabalho no Catamarã, em que a grafomotricidade e a cursiva no Infantil são desenvolvidas em paralelo com o método fônico. A criança que pratica a escrita das letras fortalece, ao mesmo tempo, sua capacidade de reconhecê-las na leitura.
Um movimento global de redescoberta
Em fevereiro de 2025, uma revisão publicada na revista científica Life (MDPI), que analisou 30 estudos sobre o tema, consolidou essas descobertas. A conclusão dos pesquisadores é de que a escrita manual promove conectividade funcional mais forte e ampla entre regiões cerebrais envolvidas no controle motor, no processamento sensorial e nas funções cognitivas superiores. A escrita cursiva, por ser uma atividade motora fluida e contínua, ativa circuitos neurais diferentes dos ativados pela letra de forma.
Em 2026, a revista Nature publicou uma reportagem destacando que a escrita cursiva está retornando aos currículos escolares no mundo inteiro, amparada por essa onda crescente de evidências. Nos Estados Unidos, mais de 24 estados já reintroduziram a obrigatoriedade do ensino da cursiva. Na Europa, países como França e Alemanha nunca deixaram de ensiná-la. E escolas que haviam abandonado a prática estão revendo essa decisão.
Por que algumas escolas abandonaram a cursiva
Nas últimas duas décadas, muitas escolas migraram para a letra bastão, com a justificativa de que seria mais simples para as crianças e mais próxima da tipografia digital. Nos Estados Unidos, a adoção dos Common Core Standards em 2010, que enfatizavam habilidades de teclado, levou boa parte das escolas a abandonar o ensino da cursiva. Na Finlândia, algumas escolas tornaram-se totalmente digitais.
No Brasil, ocorreu um movimento semelhante. Diversas instituições passaram a adotar exclusivamente a letra bastão nos anos iniciais, sob o argumento de que a cursiva seria uma habilidade ultrapassada.
Acontece que a pesquisa científica vem mostrando, com dados consistentes, que essa simplificação tem um custo. A letra bastão, por ser formada por traços desconectados, não exige do cérebro a mesma integração sensório-motora que a cursiva. O gesto gráfico é menos fluido, menos complexo e, portanto, menos estimulante para o desenvolvimento neurológico.
Uma escolha fundamentada
A alfabetização no Catamarã é uma jornada contínua: começa no corpo e na oralidade do Infantil e se consolida na leitura e escrita formal do Fundamental, sempre com intenção pedagógica, afeto e propósito. A cursiva não é um detalhe nesse percurso. Ela é parte da engrenagem que conecta psicomotricidade, grafomotricidade, método fônico e linguagem oral em um processo coerente e integrado.
Num momento em que o mundo redescobre o valor da escrita à mão, o Catamarã reafirma uma convicção que sempre esteve presente em seu projeto pedagógico: a formação integral da criança passa pelo corpo, pela mão e pelo gesto. E cada traço de uma letra cursiva é, na verdade, um passo a mais no caminho do aprendizado.
Referências científicas:
- Van der Meer, A. L. H. & Van der Weel, F. R. (2024). Handwriting but not typewriting leads to widespread brain connectivity. Frontiers in Psychology, 14.
- Askvik, E. O., Van der Weel, F. R. & Van der Meer, A. L. H. (2020). The Importance of Cursive Handwriting Over Typewriting for Learning in the Classroom. Frontiers in Psychology, 11, 1810.
- James, K. H. & Engelhardt, L. (2012). The effects of handwriting experience on functional brain development in pre-literate children. Trends in Neuroscience and Education, 1, 32–42.
- Marano G, Kotzalidis GD, Lisci FM, Anesini MB, Rossi S, Barbonetti S, Cangini A, Ronsisvalle A, Artuso L, Falsini C, Caso R, Mandracchia G, Brisi C, Traversi G, Mazza O, Pola R, Sani G, Mercuri EM, Gaetani E, Mazza M. The Neuroscience Behind Writing: Handwriting vs. Typing-Who Wins the Battle? Life (Basel). 2025 Feb 22;15(3):345. doi: 10.3390/life15030345. PMID: 40141690; PMCID: PMC11943480.
- Nature (2026). How learning handwriting trains the brain: the science behind the cursive wars.
- Berninger, V. W., & Wolf, B. J. (2016). Teaching students with dyslexia, dysgraphia, OWL LD, and dyscalculia: Lessons from teaching and science (2nd ed.). Paul H. Brookes Publishing.



