O Bilinguismo na Infância

Por Marjory Donda de Oliveira
Coordenadora Bilíngue da Unidade Vita

 

Como uma criança aprende uma segunda língua? Quando ela começa a falar? Por que entende tudo, mas responde em português? Essas são algumas das dúvidas mais frequentes das famílias da Educação Infantil, e foram elas que motivaram a formação Vivendo o Bilinguismo, oferecida aos pais do Catamarã.

Neste artigo, reunimos as respostas a essas perguntas: o que significa ser bilíngue, como se dá o aprendizado de uma nova língua na infância, como o inglês está organizado no nosso dia a dia e, ao final, como as famílias podem participar desse processo em casa, com práticas simples que fazem diferença.


O que é uma criança bilíngue?

Ser bilíngue não significa falar as duas línguas no mesmo nível de proficiência. Uma criança que se comunica em português com fluência e em inglês em situações mais simples já é bilíngue dentro das situações em que consegue se comunicar. O bilinguismo, aliás, não é uma tendência recente. Em muitos países da África e da Europa, crescer ouvindo mais de uma língua é a norma, e é natural que cada uma delas seja dominada em graus diferentes.

Na Educação Infantil, estamos trabalhando com um repertório em construção. Muitas vezes, uma criança bilíngue ainda não produz frases completas em inglês, mas compreende plenamente o que ouve. E isso é exatamente o que esperamos nesta fase.

 

Compreensão vem antes da produção

Este é o ponto mais importante para tranquilizar as famílias: compreender e produzir são etapas diferentes, e a compreensão sempre vem primeiro.

Temos exemplos próximos. Uma de nossas professoras, britânica, sempre falou inglês com o filho em casa, enquanto o pai falava português. Até os cinco anos, o menino respondia à mãe apenas em português. Ela sabia que ele entendia tudo, porque ele reagia corretamente ao que ela dizia. Em algum momento, a “chavinha virou” e ele passou a se comunicar nas duas línguas.

Se o seu filho compreende o que a professora diz em inglês, isso já é um excelente sinal. A base está sendo construída. Com exposição contínua, a produção vem no ritmo de cada criança.

Também é normal e esperado que a criança misture as duas línguas: “Acho que eu prefiro apples, I don’t like bananas“. Esse fenômeno tem nome técnico, translanguaging, e é parte natural da aquisição de línguas. As crianças não têm a ansiedade do adulto de construir a frase perfeita antes de falar. Elas simplesmente falam. É um dos motivos pelos quais aprendem tão rápido.

Há ainda a questão do contexto. Uma criança aprende que “posso beber água?” vira “Can I drink some water?” quando fala com a miss. Em casa, com a mãe, a mesma frase em inglês não faz sentido, porque o inglês não faz parte daquela rotina. Ela não está deixando de saber; está usando a língua onde a língua tem significado.


Como a criança aprende uma nova língua

No Catamarã, cinco palavras norteiam as aulas de inglês na Educação Infantil: rotina, repetição, contexto, interação e vínculo.

  • Rotina e repetição. Os cartazes nas paredes das salas não estão ali por acaso. A oração, o poema e o pôster de vocabulário da unidade do mês são revisitados todos os dias. O helper do dia aponta para as palavras e a turma inteira as repete. Para as crianças, é rotina. Para as professoras e a coordenação, é uma confirmação diária de que aquele vocabulário está sendo aprendido.
  • Contexto. Nenhuma aula começa com “hoje vamos falar de cores”. As aulas partem de uma história, de um personagem, de uma situação. Numa aula recente sobre roupas, a professora trouxe um boneco vestido para a praia num dia frio. As crianças precisaram ajudá-la a escolher a roupa certa, e foi assim que aprenderam t-shirt, jacket e as demais palavras. A língua precisa carregar significado.
  • Interação. Não se aprende uma língua sozinho. Nas atividades em grupo, ensinamos a language for the task, a frase essencial para aquela atividade, de modo que as crianças interajam entre si em inglês. Num jogo em que cada aluno precisava encontrar a metade da sua fruta, a pergunta era “Do you have an apple?“. A instrução foi dada inteiramente em inglês, e as crianças do Maternal 2 simplesmente se levantaram e foram procurar seus pares.
  • Vínculo. Se fosse preciso escolher o mais importante, seria este. Por isso as crianças têm inglês todos os dias, muitas vezes mais de uma vez por dia, e por isso as professoras dos Jardins atuam tanto nas aulas de inglês quanto nas aulas de CLIL. Elas conhecem cada criança, sabem quando alguém está mais quieto e por quê. Esse conhecimento faz toda a diferença no aprendizado.

 

Aulas de inglês e aulas em inglês

No Catamarã, o inglês acontece em duas modalidades.

As aulas de inglês (English class), geralmente pela manhã, têm o idioma como foco, sempre a partir de um contexto significativo.

As aulas de CLIL (Content and Language Integrated Learning) usam o inglês como meio, não como matéria. A aula de música com o professor Léo, por exemplo, é uma aula de música em inglês. As crianças aprendem as palavras porque elas fazem parte da atividade. Arte, ciências, matemática, nomes de plantas e animais, movimentos do corpo, natureza: tudo isso entra nas aulas de CLIL, que são também o espaço em que a criança exerce sua criatividade em inglês.

 

Uma base que se confirma ao longo da jornada

A Educação Infantil é onde a base é construída: os sons do idioma, o ritmo, o vocabulário, as palavras de rotina. Nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, as estruturas começam a ganhar nome e forma. Entre o fim dos Anos Iniciais e o começo dos Anos Finais, esse conhecimento passa a ser validado pelos exames Cambridge, que balizam o trabalho de toda a equipe bilíngue.

O Catamarã é Cambridge Center desde 2011. Todas as professoras de inglês têm certificação Cambridge nos níveis C1 ou C2, o que garante a qualidade do inglês que as crianças ouvem desde o infantil. As diretrizes para escolas bilíngues esperam que os alunos concluam o Ensino Médio no nível B2. Os alunos que crescem no Catamarã têm concluído entre os níveis C1 e C2. Já tivemos alunas que, no dia do exame C2, receberam convites de trabalho da própria avaliadora, surpresa com o inglês delas.

Mesmo os alunos que optam por não prestar os exames oficiais são acompanhados por dois simulados anuais, em maio e em setembro, que nos permitem saber com segurança em que nível cada um está. Pelo menos 30% da grade é em inglês, e a partir do 2º ano os alunos também têm espanhol.

Uma consequência prática dessa base forte: está cada vez mais difícil encontrar material para o 1º ano, porque as turmas chegam cada vez mais preparadas. Por isso revisamos os materiais sempre que necessário.

 

Como ajudar em casa

A recomendação é simples: não tente dar aula de inglês em casa. Use o inglês com seu filho.

Algumas sugestões que funcionam:

  • Escolha uma rotina e mantenha. Uma única situação do dia, sempre em inglês. Na hora do banho, por exemplo: “Let’s take a bath“, “Wash your hands“, “Is the water hot or cold?“. No começo, a criança pode estranhar (“por que você está falando inglês?”). Explique que vocês vão praticar juntos, como uma brincadeira, e insista. Em algumas semanas, as frases se tornam naturais. Use as mesmas frases com consistência, sem trocá-las todos os dias.
  • Leia em inglês. A leitura faz diferença em qualquer idade. A criança se acostuma não só às palavras, mas aos sons e ao ritmo da língua. As imagens ajudam a construir o significado, e o momento cria vínculo.
  • Cante. As músicas que as crianças aprendem na escola podem ser repetidas em casa. O canal Super Simple Songs é uma boa referência.
  • Brinque em inglês. Um jogo de montar em que as cores são ditas em inglês já é uma oportunidade.
  • Coloque desenhos e filmes em inglês. No início, é natural que reclamem. Com o tempo, deixam de pedir a tradução.
  • Reze em inglês. As crianças conhecem muitas orações em inglês da escola. Rezar juntos em casa é uma forma significativa de usar a língua.

E três atitudes que fazem diferença:

  • Aceite respostas em português. Se você pergunta “Do you prefer green or blue?” e ele responde “eu queria vermelho”, tudo bem. Responda “Ok, the red one” e siga. Você está oferecendo a língua para que, com o tempo, ela volte.
  • Não corrija de forma professoral. Se a criança diz “he goed“, basta responder “Yes, he went“. Ela se autocorrige a partir do modelo.
  • Ofereça o modelo. Quando as crianças veem os pais tentando falar, também querem falar. Se o seu inglês está enferrujado, esta é a oportunidade de desenferrujar junto.

O maior inimigo do aprendizado de uma língua é a ansiedade. Se a criança sente que está sendo testada, muitas vezes trava. Por isso, evite as perguntas do tipo “como se fala vermelho em inglês?”. Comunique, não peça demonstrações.

 

Uma nova pergunta

“Quando meu filho vai falar inglês?” é uma pergunta sem resposta exata. Pode ser no infantil, pode ser no fundamental. Cada criança tem seu ritmo. O que a escola pode garantir é o acompanhamento de perto: todas as turmas são observadas, todas as aulas são assistidas, e se algum aluno não estiver respondendo como esperado, a família é comunicada rapidamente.

Vale, então, trocar a pergunta. Em vez de “quando meu filho vai falar inglês?”, pergunte “quantas oportunidades ele tem de viver em inglês, na escola e em casa?”. Antes de falar uma língua, é preciso vivê-la, associando-a a momentos bons. Quanto mais afinidade a criança tiver com o inglês, mais fácil será aprender.

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