A infância está em transformação. A cena clássica das crianças brincando no quintal, subindo em árvores ou empilhando blocos no chão da sala vem, cada vez mais, sendo substituída por telas brilhantes que ocupam mãos pequenas e olhos atentos. Tablets, celulares, televisores e jogos digitais invadem os momentos de descanso, os intervalos das refeições e até os trajetos de carro. Diante dessa realidade, muitos pais se perguntam: é possível proteger a infância sem afastá-la do mundo digital?
A resposta não está em negar a tecnologia, mas em equilibrá-la. E, nesse equilíbrio, o brincar ocupa um lugar central. O brincar, que parece simples, é na verdade uma das atividades mais complexas e completas do desenvolvimento humano. Quando uma criança brinca, ela se expressa e experimenta o mundo com o corpo, com os afetos, com a imaginação: e é exatamente disso que a infância precisa.
Entre o ideal e o real: o tempo de tela na infância
A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda que crianças menores de 2 anos não sejam expostas às telas — nem mesmo como distração passiva. Entre 2 e 5 anos, o tempo máximo indicado é de 1 hora por dia, sempre com supervisão. De 6 a 10 anos, até 2 horas, e, para adolescentes de 11 a 18 anos, no máximo 3 horas diárias, com atenção especial ao conteúdo e aos horários (nunca durante refeições ou antes de dormir).
| Faixa etária | Tempo máximo recomendado |
|---|---|
| 0 a 2 anos | Nenhuma exposição |
| 2 a 5 anos | 1 hora por dia |
| 6 a 10 anos | 1 a 2 horas por dia |
| 11 a 18 anos | 2 a 3 horas por dia |
No entanto, pesquisas mostram que a realidade está distante dessas recomendações. Um estudo da UFMG revelou que 51% dos pais admitem que os filhos usaram telas por tempo excessivo durante a pandemia, e outros 24% relataram uso diário entre 2 e 3 horas. Já a pesquisa TIC Kids Online 2024, do Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação), apontou que 83% das crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos possuem perfil próprio em redes sociais, isso apesar de muitas dessas plataformas exigirem idade mínima de 13 anos para cadastro.
O celular é o principal dispositivo de acesso, e mais de 70% acessam plataformas como YouTube, WhatsApp, Instagram ou TikTok diariamente. O que era exceção virou regra. E, nesse cenário, vão desaparecendo o tempo de brincar, o tempo de silêncio e o tempo do corpo.
Por que o uso excessivo de telas prejudica o desenvolvimento?
O corpo é o primeiro instrumento de descoberta para a criança. Desde o nascimento, é pelo toque, pelo movimento, pelo olhar e pelo som que o cérebro começa a se organizar. Quando a criança brinca, ela rola, engatinha, empurra, puxa, salta. Esses gestos ativam conexões cerebrais fundamentais para o desenvolvimento da atenção, da linguagem, da memória e da flexibilidade cognitiva.
Em contrapartida, o uso prolongado e passivo de telas limita essas experiências. Um dos efeitos mais notórios é, por exemplo, a redução da visão periférica. Quando uma criança fixa os olhos por muito tempo em uma tela, ela deixa de perceber o que acontece ao redor. Isso interfere diretamente na capacidade de reagir ao ambiente, de desenvolver reflexos e até de se relacionar com outras pessoas.
Outro prejuízo está no córtex pré-frontal, a região do cérebro responsável pelo planejamento, tomada de decisão, controle dos impulsos e autonomia. Essa área, que continua se desenvolvendo até os 25 anos, depende de estímulos diversos e de desafios reais, como resolver um conflito em uma brincadeira ou montar uma torre com blocos. Quando a criança passa horas deslizando o dedo na tela, esse cérebro deixa de ser desafiado.
Por fim, há impactos motores claros. A escrita, por exemplo, é um movimento refinado que exige coordenação, força muscular e controle dos dedos. Para escrever com fluidez, a criança precisa ter vivido experiências como recortar, pintar com os dedos, amassar massa de modelar, fazer traços largos no chão com giz. Quando o brincar é substituído por jogos digitais, esses movimentos não se desenvolvem com a mesma qualidade, e o aprendizado da escrita pode se tornar um processo mais difícil e frustrante.
Brincar é coisa séria: corpo, vínculo e aprendizagem
Brincar não é só diversão: é construção de identidade, de vínculo, de autonomia. É quando a criança testa seus limites, experimenta o mundo, interpreta papéis e, acima de tudo, se conecta. Brincar em família, brincar com os colegas, brincar sozinha: cada forma de brincar ativa zonas diferentes do cérebro, todas igualmente importantes.
A psicomotricidade — que integra o corpo, a emoção e o pensamento — mostra que o desenvolvimento infantil começa no movimento. Antes de escrever, a criança precisa traçar no ar, firmar os ombros, coordenar os pulsos, equilibrar-se. Antes de ler, precisa organizar a percepção visual, distinguir formas, compreender ritmos. É no corpo que a criança estrutura sua inteligência, sua afetividade e sua comunicação.
Quando brinca, a criança movimenta o corpo e, com isso, movimenta a mente. Brincar de pular corda trabalha o equilíbrio, o ritmo, o controle tônico (força dos músculos). Pintar no espelho embaçado ativa movimentos circulares que, mais tarde, vão ajudar na escrita cursiva. Brincar de roda, de bater palmas, de dançar: tudo isso nutre o cérebro com experiências motoras e sensoriais que servem de base para a aprendizagem formal.
E há ainda um elemento invisível, mas essencial: o vínculo. Brincar cria vínculos. A troca de olhares, o toque, a gargalhada, o “de novo!”: tudo isso nutre emocionalmente a criança, trazendo segurança, autoestima e desejo de aprender. Sem vínculo, não há aprendizagem possível. E as telas, ainda que atrativas, não oferecem afeto, nem presença.
Sugestões práticas para pais de crianças pequenas
- Resgatar, na primeira infância, brincadeiras como “serra-serra serrador”, “duro ou mole”, jogos com cordas, panos, caixas.
- Usar materiais simples para jogos sensoriais: massinha, areia, água, tecidos, tinta, giz.
- Criar percursos em casa com almofadas, cadeiras e cordões para estimular o corpo em movimento.
- Brincar com ritmo: palmas, cantigas, dança de roda, batidas no chão. Eles ajudam no desenvolvimento da leitura e da escrita.
Brincar é cuidar
Cuidar da infância é permitir que ela se expresse com o corpo, com o olhar, com as mãos e com o tempo necessário. Não se trata de eliminar completamente as telas, mas de lembrar que elas não substituem o brincar. Não substituem o chão da sala, nem o quintal da casa, nem o colo dos pais.
Brincar é uma forma de amar. E, diante do excesso de estímulos, da pressa e da tecnologia, o brincar pode ser nossa forma mais concreta de proteção, de presença e de esperança.
✅ Dicas práticas para um uso equilibrado das telas
- Evite telas para crianças menores de 2 anos.
- Limite a 1 hora por dia entre 2 e 5 anos, com supervisão.
- Até 10 anos, mantenha o tempo de uso entre 1 a 2 horas por dia, sempre com diálogo.
- Evite telas durante as refeições e até 2 horas antes de dormir.
- Priorize ambientes comuns da casa para o uso das telas, nunca o quarto.
- Substitua momentos de tela por brincadeiras sensoriais e motoras (rolar, pintar, montar, dançar).
- Para os mais velhos, a tela pode ser substituída por jogos de tabuleiro ou de cartas em família.
- Envolva-se: brinque junto, conte histórias, cante, abrace.
- Dê o exemplo: reduza também seu tempo de tela quando estiver com seus filhos.
- Estabeleça regras claras, mas flexíveis, e mantenha o diálogo aberto sobre o que veem e fazem online.


